terça-feira, 28 de outubro de 2008

Só as mães são (in)felizes



Alguém já parou pra pensar nos versos de Cazuza: Só as mães são felizes? Se a gente presta atenção na letra o que é que realmente ele quis dizer? As mães são felizes - por não terem passado por tudo que ele passou (porque são mães, distintas e respeitáveis - de família!) - ou infelizes (por verem seus filhos sofrendo, por sofrerem a dor do parto e às vezes terem que ver seus filhos partindo)?

Sim, são felizes. Porque só elas têm o poder mais próximo do poder Divino: o poder de gerar uma vida de dentro de si - e destruí-la. A sociedade criou clichês "adoráveis" para a maternidade: "ser mãe é padecer no paraíso", "mãe só tem uma", "mãe é mãe" (e não discuta com elas!). Penso que nós mulheres ocidentais - consciente ou inconscientemente - desejamos tão avidamente sermos mães por essa única razão: tentar recuperar a auto-estima que nos foi espoliada por nossa cultura judaico-cristã. Desejamos ter um filho para sermos iguais a Deus. Quando nasce o nosso bebê, nos sentimos o máximo: Ah, finalmente terei o amor que eu nunca poderei ter de ninguém; criei um laço indissolúvel - nem a morte muda o fato de que meu filho é MEU filho - e o meu amor é o mais sublime de todos! E brincamos de Deus transformando nossas meninas em bonecas e nossos meninos em bibelôs. Fazemos todas suas vontades em troca de destruir-lhes a própria (força de) vontade - para que eles nos obedeçam (afinal, o que vão pensar de mim se meus filhos forem um "malcriados"?). EU SOU SUA MÃE, é o que elas mais gostam de dizer. Por que? Pros filhos nunca esquecerem (como se isso fosse possível)! Só uma mãe tem essa suprema felicidade - têm o poder de oprimir, magoar, maltratar, destruir um ser humano - tanto quanto o de dar liberdade, curar, cuidar e construir um verdadeiro ser humano.

As mães realmente são muito infelizes. Porque esse poder tem seu preço. Essa responsabilidade é uma carga pesada demais. Aliás, todos os erros dos filhos são culpa da mãe. Toda falta, toda maldade, toda crueldade de uma criatura: a mãe é a culpada. E de novo a culpa, a maldita culpa bíblica, recai sobre nós mulheres. Não há como fugir disso. Sendo mães, seremos sempre culpadas.

Por que ninguém entende que "ser mãe" não é nada assim tão importante? Porque "ser mãe" (me refiro a gerar um filho na barriga, parir e criar como "manda o figurino") não significa absolutamente nada diante do verdadeiro propósito da maternidade, algo que somente nós mulheres poderemos alcançar com essa experiência: sermos capazes de amar incondicionalmente. O amor que uma mãe pode dar (independentemente do que ela pode receber) é justamente aquilo que pode nos tornar definitivamente mais próximas Daquela Força Inominável Por Detrás de Todas as Coisas. Talvez seja por isso que enquanto filhos esperamos tanta manifestação amorosa de nossas mães, muito mais que a de nossos pais. Queremos que ela nos exemplifique, que ela nos mostre - sem ressalvas e sem limites - esse amor indescritível que ninguém no mundo inteiro tem para oferecer senão ela!

Assim, minhas amigas - sim, porque é para vocês que eu estou falando hoje! -, sendo mães, seremos felizes ou infelizes na mesma medida em formos capazes de fazer com que nossos filhos conheçam o Amor Profundo Que Permeia o Universo Inteiro!





À propósito da referência, deixo pra vocês asisstirem um trecho de depoimentos de Cazuza.

4 comentários:

Cláudio disse...

Criamos uma imagem de mãe além da condição das próprias mães. Como vc diz bem, esta visão ocidental de mãe aproximam elas do poder Divino. Como se mãe não errasse. Não existe mães perfeitas, porque não existe seres humanos perfeitos.
Legal, lembrar do Cazuza, que ao lado de Renato Russo, foi o princípal porta-voz da geração 80.
Hoje, esta geração "emo" não tem porta-voz, infelizmente.

Lisarbinha disse...

Ah, minha mimosa...

teu post me passou uma tristeza tão grande nas entrelinhas...

ser mãe é dureza, sim... gestar e parir é da natureza animal... amamentar já é mais complicadinho pro bicho-homem (no caso bicho-mulher, rsrs)

mas participar da releitura q um filho faz do mundo é d+! um filho mostra prá gente a infinitude de versões q a gte não é capaz de ver sozinha...

olha, eu sou mãe, imperfeita, como disse o amigo aí do outro coment, mas plenamente consciente de q os meus erros foram e são digeridos pelos meus filhos

e q, independente de qquer coisa, admiro cada um deles, com suas particularidades...

ser mãe é muito bom, p/isto no dia das mães comercial, eu é q gosto de presentear meus rebentos!

sem eles, eu seria menos do q sou...

*Lusinha* disse...

Eu nãou sou mãe, mas sempre disse que o amor mais incondicional e perto de Deus que eu pude chegar foi, definitamente, o da minha mãe.
Bjitos!

Cláudio disse...

Outro dia ouvi uma mãe (Ela é MÃE, portanto pode tudo!) mandar uma criancinha de uns 2 anos calar a boca. A sociedade - principalmente a ocidental - colocou glórias divinas e responsabilidades divinas em ser mãe. Não Japão e Índia as mães não são vistas como superpoderosas.