quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Força Estranha - Adeus, meu tio...

Sei que ainda é cedo para um balanço de fim de ano, mas tem sido impossível não olhar para trás e ver o quanto eu perdi ou tentar, com extrema dificuldade, lembrar quando, como, onde, se e o que eu ganhei nesse ano de 2010. Tem sido, para mim, uma sucessão absurdamente ininterrupta de momentos fantásticos seguidos de catastróficos. Há dores e males que a alopatia cura. Entretanto, o que pode curar um coração trespassado pela foice impiedosa da morte que leva desse mundo os que você tanto ama sem direito a protestos? Não há remédio que cure o pesar do pensamento torturante do "nunca mais". 

Há pouco mais de 3 meses, meu coração enlutado sofre a ausência do pai querido e hoje recebe, com extrema tristeza, a notícia do falecimento do tio mais amado. Dos irmãos maternos, ele sempre foi o mais próximo. Tinha o temperamento muito forte esse meu tio. A lição que me ensinou, ainda na tenra infância, jamais vou esquecer: criança distraída em folguedos, esqueci-me, certa feita, de cumprimentá-lo como se deve. Severamente criticou meu comportamento distraído lembrando-me da importância do respeito aos mais velhos e o sagrado dever dos mais jovens de pedir-lhes a benção. Daquele dia em diante, nunca - JAMAIS - deixei de cumprimentá-lo dessa forma  (a ele e a todos os meus tios) mesmo depois de tantos anos. Meu respeito e carinho me fizeram ser bastante grave com ele em nosso último contato direto: era diabético como meu pai e eu temia muito por sua saúde. Pedi-lhe que não abusasse mais do álcool, açucar e cigarro... Não queria perdê-lo precocemente, posto que mal ultrapassara a casa dos 60. Com muita tristeza confesso que meu coração parecia adivinhar que o momento fatídico se avizinhava e sei que disse, com o mesmo rigor com que anos atrás me corrigira ele o comportamento, que devia eliminar de vez os hábitos que minavam sua saúde. No momento em que os dedos tentam acompanhar as batidas arrítmicas do meu coração ferido pelo infortúnio da perda inevitável, tenho a certeza de que ele, onde quer que esteja, me perdoa por ter sido tão dura em nosso último encontro. Exerci com ele o que me ensinara - a corrigir (com e) por amor, ainda que austeramente.

Meu tio... Nunca se apagará de minha memória seus passos de dança com toda a família alegremente reunida há tão pouco tempo atrás. Seu sorriso - uma despedida, agora sei - de dentro do carro para mim na última segunda-feira guardavam uma ternura que só quem sabe - sem saber - que está partindo oferece às pessoas queridas.

Por certo que Deus ou o destino - seja lá qual nome tenha essa série de eventos ora desastrosos ora cheios de encanto a que chamamos vida - tem subtraído (esse ano mais que em qualquer outro anterior)  de mim a alegria que estoicamente tento preservar. Todavia, é inegável reconhecer que esse mesmo Deus soma em minha vida uma força estranha nas horas mais graves: uma coragem sem tamanho, uma fé quase inabalável, apesar da dor e do lamento, uma certeza quase inexplicável de que eu preciso... continuar a cantar. 

Um comentário:

Cláudio disse...

Suas belas palavras já dizem tudo. A dor mesmo, vem é da saudade, de buscar e não encontrar mais a pessoa. Morte é a resposta ao nosso apego. Nada é para sempre, só uma coisa é para sempre. Que cada uma descubra o que é.