domingo, 21 de novembro de 2010

Laços de Família


A coisa mais permanente nesse mundo é a mudança. Tudo está constantemente se renovando, transformando, multiplicando, expandindo - ou sumindo. Por que então paradoxalmente procuramos sempre algo que dure para sempre? "E foram felizes para sempre", ainda que irreal, soa imprescindível a uma história (de amor) feliz. 

Nada dura para sempre. Lembro que, quando criança, fazia coleção de copos de extrato de tomate da Cica. Na época, cada um vinha com um personagem diferente: Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali e até o Jotalhão. Morria de ciúme deles e meu maior medo é que eles se quebrassem. Inevitavelmente, um a um, foram se quebrando. O choro de uma revolta pueril evidentemente era ignorado pelos adultos que entendem "muito bem" o que é a impermanência na vida.

Há, de fato, algo que seja absolutamente indissolúvel? Se até um diamante se parte e mesmo o inofensivo vento pode causar incauculável destruição, existe algo - mesmo que não-material - que seja eterno? Posso estar enganada, mas há apenas uma coisa indissolúvel na existência humana: os laços de família. Existe ex-amigo, ex-vizinho, ex-colega, mas não ex-pai, ex-mãe, ex-irmão, ex-sobrinho, ex-primo e assim sucessivamente. Os laços consanguíneos são indissolúveis e nem mesmo a morte nega o fato de que alguns indivíduos nesse mundo estão intrinsecamente ligados a você quer queira, quer não.

Sempre existe aquele parente pentelho que você evita e, sem dúvida, aquele que você mais adora. Afetos ou desafetos, parentes são partes de você que vieram antes e que se perpertuarão mesmo quando você não estiver mais nesse mundo. Tenho pensando que nos irritamos e nutrimos - sem refletir - mágoas e rancores contra essas partes de nós que não queremos aceitar...

Equivocadas ou benfazejas, nem sempre as ações definem o que uma pessoa significa para você porque uma pessoa é muito mais do que o modo como ela age. Ela é seu sangue, seu gene - um símbolo que possui significância. Acredite ou não, pais magoam seus filhos... Irmãos se odeiam e se digladiam... Primos se invejam. Marido e esposa se detestam. Se pudéssemos pensar que nossos laços de sangue são imutáveis, não nos toleraríamos irrefletidamente e seríamos honestos com nossos familiares. É nosso dever não cultivar contra aqueles que definitivamente são parte de nossa existência raiva ou ódio, pois seria o mesmo que não nos aceitar e respeitar. Com nossa família, deveríamos treinar o exercício da franqueza, da humildade, da sinceridade, como apregoava o saudoso José Ângelo Gaiarsa. Ele dizia que isso era tudo o quanto falta no seio da família - além de um profundo sentimento de "religiosidade" - para que houvesse realmente entendimento. Portanto, deveríamos saber separar as pessoas de seus atos e aceitar que não nos indignamos contra nossos pais, tios, avós, ("superiores"), irmãos, primos ("iguais") e os demais ("inferiores"), mas sim contra atitudes injustas e prejudiciais. Não existe harmonia, paz e amor onde há a desconfiança, rancor e revolta. É preciso diálogo - franco e sincero; calmo e sereno.

Essa expressão - laços de família - me remete à Clarice Lispector e ao desconsertante conto que leva o mesmo nome. Penso que laço é uma palavra imprópria para associá-la ao que nos liga aos nossos ascendentes e descendentes. Eles representam nossa história - a que houve antes e que haverá depois da nossa existência, afinal. Laços são frágeis e desmancháveis. Família é para sempre. E hoje penso nela - no modo como a vejo e como ajo dentro dela - com um pouco mais seriedade e carinho que ontem.

Um comentário:

Cláudio disse...

É interessante o que você fala. Mas família para mim não passa de uma convenção social. Nós não escolhemos primos, irmãos etc. Seu eu pudesse escolheria outros. Se temos a obrigação de gostar de pai, irmãos, avós, então não temos liberdade. Tudo bem q não existe ex-irmão, ex-mãe, mas isto para mim não passa de obrigações sociais.