segunda-feira, 1 de junho de 2009

Não aprendi a brincar de soltar papagaio


Soltar papagaio (é assim que em Minas nós chamamos a pipa) é brincadeira de menino, determinaram. Aliás, há muitas coisas só de meninos que meninas não podem. E na minha cabecinha de criança, eu não entendia porque não. Eu via os meninos andando sem camisa na rua - menina não pode; lá ia eu cobrir minhas "vergonhas". Fazer e soltar pipa então era o tabu supremo. Eu via meu irmão mais velho no maior empenho preparando as taquaras de bambu, montando com papel de seda, fazendo rabiola com plástico de saco de lixo, socando vidro pra fazer cerol... Era a brincadeira predileta dele. Ele não me ensinou. Ninguém nunca.

Às vezes, penso que uma pipa voando na imensidão do céu é a metáfora perfeita da minha vida. Sinto-me presa por uma linha - longa, mas frágil - bailando no vento... Tento ir pra esquerda, me puxam pra direita. Dou uma pirueta, danço como posso. Luto contra e a favor do vento. Sou um pontinho minúsculo e colorido enfeitando a imensidão azul. Minha linha não tem cerol. Qualquer um pode vir querer me tosar. E tentam. E tentam. Mas o Soltador de Pipas é habilidoso. Ele dá um jeito de fugir e me manter bailando no Infinito.

Se um dia o vento me rasgar, que Ele me repare, me conserte. Mas se um dia a linha se desgastar, se arrebentar e eu cair, que seja suave a queda e que eu pouse nas mãos de quem me queira bem.




2 comentários:

Nana Pertence disse...

Perfeito. Simples assim...

Cláudio disse...

Eu soltei papagaio - como todas as outras crianças da minha época. Época que o único computador que conheciamos era do seriado do Batman. Gosta mesmo era de mandar o papagaio bem longe. Nunca vou esquecer de um vizinho que teve a ideia de tentar mandar um papagaio que sumisse no horizonte. Juntamos dinheiro para comprar rolos e mais rolos de linha. Vimos o papagaio sumir no horizonte - certo momento nem o viamos mais apenas a linha, até que a linha arrebentou e voltamos felizes pra casa.
Fui uma criança pobre-rica. Pobre porque mal tinhámos o que comer e rico porque temos o que 90% das crianças não tem hoje: liberdade