quarta-feira, 8 de abril de 2009

Miserable

Estamos acostumados com o sentido comum do termo miserável - desprovido de recursos materiais: um sem-teto, um sem-dinheiro, um "nada". Esse sentido é o mais forte na nossa língua; é o que parece. Em inglês, miserable é o termo mais "completo" que expressa uma terrível infelicidade - tão grande e devastadora que pode até mesmo nos matar.

Eu me sinto absolutamente miserável quando sou pega por um resfriado. Uma "simples" gripe me derruba mais que uma bala de canhão, palavras de escárnio ou desprezo, um murro no meio da cara. Ela me reduz a um caco, a um trapo velho e em desuso, descartável... Nada me conforta. Nem mesmo a certeza de que a gripe "não mata", apesar de derrubar. Mesmo sabendo que ela vai passar e que vou ficar bem, só o fato de estar mal e não saber exatamente quando vou me sentir um ser humano outra vez é o suficiente para me deixar completamente MISERABLE - literalmente.

Hoje, ante de ir para a escola, eu assisti o último episódio da atual temporada de House M.D. Ele caiu sobre mim como uma bomba, como um raio - fulminante, mortal. Não vou "spoilear", mas o fato é que me fez pensar numa coisa importante, séria e - pasme, como eu! - verdadeira: as pessoas menos prováveis de serem miseráveis são justamente as mais miseráveis de todas! Desconfio agora e daqui pra frente de toda a pessoa que autoafirma a felicidade, a pessoa que está sempre sorrindo, a solícita, a que sempre está ali para te ajudar. Porque é ela a mais infeliz, a mais solitária, a que mais clama por socorro - essa é a sua maneira de pedir. É por isso que eu gosto de ver House. Essa série sempre me leva a profundas reflexões sobre o comportamento humano - além da mera filosofia existencialista e do senso comum.

E o que tem tudo isso a ver como fato da gripe me deixar tão "miserable"? A gripe é meu grito de socorro. É o que me mostra o quanto eu me sinto miserável por não ser reconhecida pelo que faço, pelo que sinto, pelo que sou... A gripe me aponta como sou sensível à indiferença do outro e o quanto o que ele pensa ou sente sobre mim me afeta...

Já identifiquei em House algumas pessoas que eu conheço. Mas dessa vez, eu absurdamente me identifiquei com um personagem, reconhecendo em mim tudo que havia nele. Por isso, hoje, sou capaz de encarar a minha própria miséria. E não vou culpar a gripe.

3 comentários:

Roana disse...

as vezes eu me sinto uma Miserable ;/~

Cláudio disse...

Eu conheço muitas pessoas solícitas como vc comenta, uma delas, da minha escola, está sempre querendo ajudar os outros, e acredita que vê as pessoas profundamente e nunca erra um diagnóstico segundo ela. Depois, com o tempo, descobri que está pessoa se nega o tempo todo, nunca quer olhar pra dentro de só e ver seus sérios problemas.
Quando você ficar se sentindo assim, “miserable”, vá ouvir a música dos The Smiths, Heaven Knows I'm Miserable Now. Rs.

Duda disse...

Eu já fui assim uns anos atrás, mas a partir do momento que descobri que sou a única responsavel pela minha felicidade tudo mudou. Hoje tento ajudar as pessoas a enxergarem isso tbm... mas é dificil, minha ficha não caiu do nada.

mas acredito que ao estarmos sensiveis, muita coisa pode acontecer, inclusive ficarmos doentes.
Cabe a cada um como encarar isso, uma simples "gripe" ou encarar a realidade.

:)