quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sobre animais, amizade e a capacidade de adivinhar

Hoje foi um dia pesado. Um dia tenso e quente. Vasculhei gavetas e entre mil papéis inúteis que eu insisto em guardar, encontrei os que eu precisava. Havia muita coisa para resolver. E nenhuma disposição para. Liguei para um amigo e adivinhei sua má vontade em me ajudar.

Mais tarde, tolerei o mau-humor de outro. Fui compreensiva tanto quanto gostaria que fossem comigo. E aceitei seu convite para assistir a palestra de uma amiga dele sobre os benefícios dos animais de estimação à saúde humana. Foi literalmente bárbara! Emocionante, eu e outras pessoas presentes diriam com toda segurança. Meu amigo fora convidado por ela para comer uma pizza com ela e outras amigas dela. E ele me deu a notícia entre dentes e eu adivinhei que ele não queria que eu fosse.

Eu suporto qualquer coisa de uma pessoa que eu considero amigo. E a palestra que assisti ilustrou com louvor como se deve tratar um amigo que nos trata com tanta dedicação e lealdade como os bichos. Do que ela disse, o que mais me tocou foi ter dito que a diferença entre nós e os bichos é que não existem ambivalências em seus sentimentos. Os bichos não amam e odeiam ao mesmo tempo, mas nós humanos sim. Os animais não são hipócritas e não fingem que nos amam para tirar proveito como costumamos fazer sem pestanejar. Um amigo que nos ama e considera não apenas se alegra conosco, nos apoia e ajuda, mas um amigo verdadeiro deveria, antes de mais nada e acima de tudo ser sincero. Um amigo deve ter liberdade de dizer para o outro qualquer coisa. Nem que seja um sonoro 'vai tomar no seu cu'. Um amigo não deve ter temor em dizer algo que talvez (ou invariavelmente) magoe se o que ele disser for sincero, honesto.

Um amigo desse quilate não se acha em qualquer esquina, mas nem todos desejam um amigo assim. Eu não desejo. Eu só aceito um amigo assim! Se não for assim, para mim é qualquer coisa, menos amigo.

Para esses dois que eu considero como amigos, eu fui a amiga que eu sempre quis ter. E disse o que eu adivinhei. E disse que como amigos, eles tem comigo toda a liberdade para dizerem: 'não tou afim de te ajudar, se vira!'; 'não quero que você se misture com meus outros amigos'. Não quero justificativas, não quero desculpas. Quero apenas a honestidade. Não quero mais adivinhar essas coisas e me sentir traída, magoada. Detesto pensar que as pessoas que eu considero amigas só se lembram de mim quando precisam e me chutam para escanteio quando não sou mais útil.

Entendi muito bem o que a palestrante quis dizer quando falou à respeito da nossa responsabilidade para com os nossos amigos animais. Eles nos dão tudo de si; dão tudo que tem e podem dar. Eu tive um cão que sorria para mim quando eu pedia. E me consolava quando eu chorava. Ele me deu tanto e quase nada me exigiu. Tão pouco eu fiz pelo muito que ele me fez - dava banho, água, comida e carinho (que nunca se equivaleu ao que ele me deu). Tenho uma que faz por mim o mesmo! É minha companheira na minha solidão. Ela me faz sentir que sou necessária e importante para ela como nunca ninguém conseguiu fazer. Assim, quem quer que diga que prefere ter um animal a um filho não me surpreende nem me choca. Talvez se aprendêssemos com eles o tal do amor incondicional que dizem que os pais sentem por seus filhos, talvez pudéssemos realmente pensar em ter filhos...

Adivinhar é uma capacidade mágica que a gente vai adquirindo desde o útero. Um bebê adivinha que a mãe vem alimentá-lo quando ele chora. Então ele chora! Uma criança aprende a falar sem que ninguém ensine o sentido de cada palavra. Ela adivinha sem questionar que mamãe é aquela mulher que o alimenta e cuida. E que papai é aquele babão que brinca com ele quando está em casa. Ninguém ensina uma criança a ter preconceito. Ela adivinha que pretos e pobres não são bem-vindos. Uma criança adivinha que seus pais não se amam, se sente culpada e adoece. Desde cedo uma criança aprende que "ser bonzinho" rende uma recompensa. Mas adivinha que é se comportando mal que sente que seus pais se importam com ela. A gente passa a vida adivinhando sem saber que adivinha. Às vezes até finge que não sabe para não doer. Adivinhar é uma capacidade muito bacana. Exige operações cognitivas muito complexas! Isso é uma das coisas mais legais que eu aprendi na faculdade - que a criança tem uma extrema capacidade de deduzir e concluir coisas que nós adultos não conseguimos. Ao longo da vida, passamos adivinhando as pessoas porque elas não são capazes de dizer quem são ou se comportarem com naturalidade. A arte de adivinhar tem sua graça, como uma brincadeira divertida. Mas a beleza de uma arte se revela em sua capacidade de nos surpreender. E num mundo de mentiras e adivinhações, a arte da sinceridade sempre me surpreende.




Starálfur (da banda islandesa Sigur Rós) é para mim uma das músicas mais lindas do mundo!

6 comentários:

J. Fabricio disse...

Muito legal...melhor ficar um tempo sem falar, pra não estrangular. Beijo enorme!

thais.sabara disse...

eie! adorei seu blog, textos muito bons! bem, sobre amigos, esta ficando cada vez mais difícil arrumar pessoas que realmente valham à pena nesse mundo. todos sao muito egoistas ou então são simplesmente falsos e invejosos.
beijos!
www.thais.defenestrando.net

Arly Cravo disse...

Brilhante Dri. É por isso que é sempre bom ficar atento para a presença da dignidade em qualquer relação. Em geral a gente tem dos outros o que damos a eles, e se não temos, paremos de dar, senão não é digno. Cada um dá o que tem e assim faz por merecer o que recebe.

Cláudio disse...

Muito bonito que escreveu, mas sei que não escreveu simplesmente para as pessoas acharem bonito. Pena que pessoas amigas comunicam um desejo "entre dentes".
A palavra "amigo" banalizou tanto quanto a palavra "amor". Não ser sincero aprendemos observando desde criancinhas, como vc disse criança não é boba. Advinha tem a ver com observação mais profunda, como Krishnamurti falava.
E está música aí? Sigur Rós fazem música de outro mundo. Que sensibilizade!

"o poeta da verdade" disse...

..."tu nao és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos.E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim.Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas.Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro.Serás para mim o único no mundo.E eu serei para ti única no mundo"... ANTOINE DE SAINT- EXUPÉRY

MENINAS MARGARIDAS NO REINO DO POVO MIÚDO disse...

OI adri, muito bacana teu blog.!
e é isso mesmo,tenho 10 gatos isso mesmo dez!! todos carinhosos e amáveis..estão por perto quando estou triste ou feliz,e mesmo que meu pai ou minha irmã mandem eles para fora eles sempre dão um jeito de pelo menos um ficar por perto.as pessoas me perguntam porque e para quê tantos gatos?E eu digo- você conta seus amigos?!. não!nós os conquistamos não é mesmo?!..
beijos margaridas....