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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

No regrets


Arrepender-se em português é um verbo reflexivo (também chamado pronominal). Filosoficamente, poder-se-ia entender que ninguém pode sentir arrependimento alheio. É como identidade - intransferível. A presença do pronome define o verbo - identifica completamente a ação com quem a realiza - o sujeito com seu objeto. E como expressar em palavras o que arrepender-se quer dizer?

O recurso mais provável é tentar buscar na etimologia algumas explicações. Assim como a palavra saudade, arrepender-se é um verbo que não tem uma tradução precisa em outros idiomas. Vindo do latim repoenitere, (seu sentido se relacionaria à reposição de algo ou alguma coisa "que falta"; re-poenitere: repor a pena - poena = dor -, sofrimento) a palavra está arraigada à cultura judaico-cristã em que o arrependimento é o "merecido castigo" autoimposto do pecador. Ninguém impõe este sofrimento a ninguém. Ele surge única e exclusivamente para torturar a mente e o coração daquele que se acusa de alguma falta (pecado).

O termo regret em inglês, que teria origem no francês regreter, que por sua vez teria vindo do germânico grāta, não se relaciona com o sentido da origem latina do verbo arrepender-se, mas expressa que o arrependido precisa não apenas de autopunição, mas expor seu sofrimento ao mundo (que explica a origem germânica em grāta, que significa expressar profundo sofrimento com lágrimas).

Assim, poderemos entender o ato de arrepender-se como uma atitude "cristã". Mas, por que? A autopunição apaga ou remove a falta cometida? Em que o sofrimento, o lamento por um "pecado" cometido ajudaria? Por que então nos autoimpomos tal castigo?

Arrepender-se é sofrer duas vezes, como se o sofrimento em si mesmo já não doesse o suficiente. Entretanto, por outro lado, pode representar um lampejo de humildade, de reconhecimento das nossas fraquezas, de que somos humanos e erramos...

Reconhecer falhas e erros em nossas atitudes nos torna (mais) humanos. Mas nos autoflagelar por elas, nos desumaniza. Porque ser humano é ser capaz de aprender - com os erros, com os acertos, observando, agindo - reponsabilizando-se pelos próprios atos, conscientemente.



segunda-feira, 6 de julho de 2009

Carta para uma criança




Para Lucas Belli

É difícil enxugar as lágrimas de uma criança quando a dor que ela sente não é pelo tombo da bicicleta, da topada no futebol; porque essa dor é daquelas que não dá pra curar com merthiolate - que hoje em dia nem arde! - e nem soprando e dizendo "antes de casar sara" vai fazer melhorar...

Sabe, criança... A gente cresce e esquece as coisas boas da infância - a pureza, a inocência (ninguém sabe perdoar melhor que uma criança uma ofensa ou uma briga feia), a alegria com as coisas mais simples da vida... Adulto cresce achando que agora ele vai poder tudo que antes não podia. Esqueceu de fazer a coisa mais importante que a gente veio fazer no mundo - APRENDER. Adulto acha que sabe tudo e não sabe nada, não entendeu, não aceitou, não compreendeu, não aprendeu... E gente grande machuca uns aos outros e nem nota que machuca você também, eu sei.

Posso te dar um chocolate ou prometer te levar no parque para fazer você esquecer... Mas eu sei não vai ajudar. Já fui do seu tamanho e fizeram isso comigo. Nem assim parou ou doeu menos. Assim, o melhor que posso fazer por você, minha criança, é dizer a verdade, mesmo temendo que ela faça doer ainda um pouco mais... O que faz doer (e me atrevo a dizer que sempre) é o amor: demais - o que você tem para oferecer e não aceitam ou rejeitam - e de menos - o que você não recebe, mesmo merecendo tanto...

Queria, do alto da minha sabedoria de gente grande, ser capaz de indicar o exato remédio que vai fazer sarar seu machucado. Mas eu não sei... Nem o que dizer, nem o que fazer. Mas, olha... A dor do amor é uma dor bonita, sabe? É a que faz a gente saber que tem um coração. Portanto, por mais estranho que pareça, você não deve sofrer por isso. Ter um coração é uma coisa maravilhosa! Tem muita gente que parece ter pedra no lugar... Se você chora porque está doendo, é porque você tem um e isso te torna especial.

Criança, eu sei que dói demais crescer. E posso dizer que essa dor é uma professora muito brava e exigente. Se a gente não entende a lição, ela vem toda rigorosa! Ela não faz por mal e nem quer que a gente sofra. Ela só quer ensinar... E aprender, meu menino, é a coisa mais legal que a gente pode fazer a vida inteira!




quarta-feira, 1 de julho de 2009

Quero ser Guru


Se não fossem os Beatles, o Ocidente não saberia o que esse termo originário da cultura indiana significa. Seu sentido, então, hoje está completamente banalizado: o guru da moda, o guru disso o guru daquilo... Etimologicamente, vem do sânscrito (considerada a mais antiga das línguas indo-européias) e é formada pelas sílabas gu - que significa sombra - e ru - que significa aquele que dissipa. Grosso modo, guru nada mais é que professor. O fato é que no Hinduísmo (agora tão caricaturizado pela maldita novela das oito), o guru é muito mais do que um simples instrutor. O guru é o único que pode salvar o discípulo da ignorância, conduzindo-o a liberdade - ou a Deus, em outros termos... Assim, o guru é "aquele que deve ser seguido". Portanto, sem discípulo, não existiria guru, não é? Pois é...

Há muito tempo tenho tido contato com gurus e me desapontado profundamente com eles. A crença de que um guru verdadeiro nos libertará do sofrimento é tão tentadora quanto morfina para o canceroso em fase terminal. A experiência tem me mostrado que as pessoas realmente não sabem o que de fato é um guru. E os gurus também não sabem qual é mesmo o seu papel no mundo. Ser um guru na Índia deve ser comum e natural - como ser padre no ocidente, talvez. Mas ser um guru de ocidentais significa viver num luxo absurdo e ser venerado, adorado como um ídolo pop - nenhuma diferença entre os fãs da Madonna e os seguidores ocidentais de guru. Nunca vi um favelado miserável seguir guru. Quem segue guru já foi para os Ashrams da Índia ou dos Estados Unidos pelo menos uma vez na vida. E que pobre ganhador de salário mínimo brasileiro pode pensar em realizar uma extravagância dessas? E quem em nosso país subdesenvolvido pode sustentar com dakshina a obra de um guru? - nenhuma diferença entre os ricaços que doam para instituições "espirituais" orientais e os pobres que dão o dízimo para as igrejas evangélicas.

Controvérsias à parte, acho que aprendi muito com todos os gurus que passaram pela minha vida. Aprendi que os ensinamentos de um guru (falso ou verdadeiro, realizado ou não, não importa) não difere muito uns dos outros em conteúdo - apenas na forma; que a equanimidade é o caminho da paz interior; que servir, ser doce, justo, honesto, bom, amoroso não são apenas deveres morais de todo ser humano, mas constituem sua verdadeira natureza; com forma, sem forma, com nome ou sem nome, existe "algo" que está além da compreensão comum - que guia nossas vidas, transformando-as, conduzindo-as, por mais que tentemos colocá-las segundo nossas próprias leis e, quando nomeado, é doce em qualquer idioma; que todos os templos, todas igrejas, todos os espaços que cultuem isso que prefiro não denominar é capaz de nos deixar mais fortes para enfrentar os obstáculos da vida e que devíamos sempre frequentar algum com o qual nos identificássemos.

Sobretudo, aprendi que esses seres "especiais" que obtêm da humanidade ordinária o título de mestre espiritual recebem tudo pelo qual todo ser humano - ignorante, culto, rico ou pobre - sempre desejou: atenção, cuidado, carinho, respeito e amor. Por isso, vou achar um caminho para me tornar guru. Mas pretendo ser um guru diferente. Não quero que me sigam. Não quero ser exemplo, não quero levar ninguém a lugar nenhum. Quero que cada um se ache, como eu quero me encontrar. Quero que todo mundo desperte a força que eu quero desperta em mim. Quero que cada um coloque à prova seus valores e supere as dificuldades como eu tento fazer todos os dias. Quero que todos encontrem a alegria de viver, mesmo que ela pareça não existir, porque eu sei que ela existe e que só é preciso encontrar. Não quero que ninguém me faça cerimônias devocionais. Quero ser grata pelo amor que sinto profundamente pelas pessoas e que o respeito que eu almejo brote dele, mutuamente. E sinceramente desejo, acima de tudo, que cada um seja o guru de si mesmo!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

A finalidade da minha existência

Um dos clássicos da MPB, favorita de muita gente, a canção "O que é, o que é?", do Gonzaguinha nos traz uma bela reflexão sobre uma palavra - um substantivo, um verbo: vida, viver. Ele e todos que gostam de cantar essa música, preferem a "pureza da resposta das crianças". Outros, todavia, preferem a "objetividade" da resposta de Schopenhauer: "Viver é sofrer". Ambos preocuparam-se em definir o que é aquilo que chamamos vida, dar um conceito sobre o viver. Mas nenhum dos dois se ocupou em responder sobre a finalidade da vida.

Particularmente, gosto da letra de Gonzaguinha - otimista. Entretanto, não posso negar que Schopenhauer - pessimista - me soe muito mais realista. Desde o momento que chegamos nesse mundo, sofremos. Somos arrancados do útero de nossas mães - quentinho, seguro - e somos obrigados a respirar! Ninguém se lembra como é a sensação. Deus deve ter sido muito generoso por não deixar que a gente se lembre disso pois me parece ser um processo muito, muito doloroso... Já parou pra pensar quanto sofrimento passa um pequeno ser apenas por (lutar para) viver? É dor de barriga, dor dos dentes nascendo, uma série de doenças e dores expressas no choro estridente de quem não sabe ainda suportar em silêncio a dor física.

Hoje, não por acaso, pensei em todas as dores sofridas - físicas e psicológicas - pelas quais passei nessas mais de 3o primaveras: os joelhos ralados das quedas, o dia em que eu quebrei o braço esquerdo (anos mais tarde quebraria também o direito), a primeira (única e última) surra que eu levei do meu pai... As doenças: catapora (ainda me lembro do corpo febril e das feridas que coçavam terrívelmente), rubéola, cachumba... e os inúmeros resfriados (e as injeções de Bezetacil). Depois, as terríveis cólicas menstruais e as dores mais excruciantes do mundo: enxaqueca crônica, cólica renal e... a dor de um aborto espontâneo. É tanta dor física que eu já experimentei que costumo dizer que quando eu morrer, nem vou saber que estou morrendo. As psicológicas: o deboche por ser magra demais, ser preterida no jardim da infância pela professora por não ser a "mais bonita", a "mais rica" e a "mais inteligente", ficar sempre em último lugar na família e ter que aprender a fazer tudo sozinha desde muito, muito cedo. Depois, o escárnio por ser gorda demais, o desprezo por ser "inteligente demais"; amar uma pessoa - aquela que a gente pensa que é pra sempre - e ser abandonada por ela e preterida por outra. Amar outra pessoa e ser abandonada (de novo), sem a menor explicação. Amar uma pessoa - a que você pretende e tem fé que seja finalmente aquela que te completa - e ouvir dela todas aquelas coisas que te fazem sentir a agonia de estar vivo, de "ter que" continuar existindo, apesar de.

É, Schopenhauer tem toda razão. Nem as pequenas, nem as grandes alegrias, cobrem a multidão dos meus sofrimentos. Todavia, como todo mundo, nas palavras de Gonzaguinha, não quero a morte. Não porque a temo. Ao contrário, todas as dores que sofri e que tenho a certeza absoluta de que ainda vou experimentar até que o último sopro de vida deixe meu corpo me fazem saber que morrer é a consequência que, entendida, deve ser simplesmente aceita.

E sobre a finalidade da Vida, afinal? Que me perdoem o imenso preâmbulo para o registro de algo muito, muito simples sobre a minha razão de existir: eu existo para fazer feliz as pessoas. Eu quero isso. Eu vim a esse mundo para trazer alegria, amor, paz e felicidade para quem estiver no meu caminho. É por isso que eu estou aqui. É por isso que eu quero viver. Descobri, muito de repente, que fazer as pessoas felizes é a maior alegria que podemos ter - uma que não se compra com dinheiro - e a maior tristeza que podemos experimentar é de causar o sofrimento dos outros. Se a grande luta dos (sobre)viventes é ser feliz, a finalidade da minha existência, enquanto eu tiver forças para continuar nesse mundo, é essa: nunca magoar ou ferir quem quer que seja e proporcionar felicidade. Assim, meus amigos, entre Gonzaguinha e Schopenhauer, fico com Guilherme Arantes e o seu Brincar de Viver...



P.S:Antes de escrever esse post, conversei longamente com uma amiga querida - a @Dea_Brat - sobre a vida e aqui ela escreveu algo bastante bonito sobre o que ela pensa...

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Não aprendi a brincar de soltar papagaio


Soltar papagaio (é assim que em Minas nós chamamos a pipa) é brincadeira de menino, determinaram. Aliás, há muitas coisas só de meninos que meninas não podem. E na minha cabecinha de criança, eu não entendia porque não. Eu via os meninos andando sem camisa na rua - menina não pode; lá ia eu cobrir minhas "vergonhas". Fazer e soltar pipa então era o tabu supremo. Eu via meu irmão mais velho no maior empenho preparando as taquaras de bambu, montando com papel de seda, fazendo rabiola com plástico de saco de lixo, socando vidro pra fazer cerol... Era a brincadeira predileta dele. Ele não me ensinou. Ninguém nunca.

Às vezes, penso que uma pipa voando na imensidão do céu é a metáfora perfeita da minha vida. Sinto-me presa por uma linha - longa, mas frágil - bailando no vento... Tento ir pra esquerda, me puxam pra direita. Dou uma pirueta, danço como posso. Luto contra e a favor do vento. Sou um pontinho minúsculo e colorido enfeitando a imensidão azul. Minha linha não tem cerol. Qualquer um pode vir querer me tosar. E tentam. E tentam. Mas o Soltador de Pipas é habilidoso. Ele dá um jeito de fugir e me manter bailando no Infinito.

Se um dia o vento me rasgar, que Ele me repare, me conserte. Mas se um dia a linha se desgastar, se arrebentar e eu cair, que seja suave a queda e que eu pouse nas mãos de quem me queira bem.




quinta-feira, 21 de maio de 2009

A Legião Urbana - Metal contra as nuvens


A Legião fez parte da minha formação; da formação do meu caráter lírico. Eu era uma adolescente cheia de sonhos, cheia de vontade - de entender, de sentir e de viver. Cantava Faroeste Cabloco inteira de cor. Perdi o último show que fizeram em BH (uma vergonha que eu tenho dessa cidade e das pessoas que fizeram o que fizeram com o Renato aquele dia). Eu não entendia... Eu apenas sentia.

A música "Metal contra as nuvens" é tão diferente de tudo, tão diferente daquela fórmula tão comum de música: tema (sempre banal e óbvio) e refrão. Essa canção é uma quebra de "paradigma". A letra tem tanta poesia, tanta metáfora... E o sentido, fica com quem ouve, com quem consegue extraí-lo.

Essa música hoje faz muito mais sentido para mim do que naquela época. Não vou dizer... Deixo você tentar entender, como eu tentei... E de certa forma, consegui.

Veja o vídeo da versão acústica da canção clicando aqui.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A Felicidade é clandestina

Clarice é minha favorita - é evidente. Mas recentemente tive que reconhecer que ela não era lá muito original. Muitas coisas legais que ela disse foram ditas por Fernando Sabino. Ela só colocou da maneira dela. É aquela tal de Lei de Lavoisier da literatura. É certo que me desapontou um pouco reconhecer isso depois de reler "O Encontro Marcado", mas assim mesmo ela (na verdade, o Sabino mais ainda) conseguiram pôr em palavras de maneira absolutamente perfeita como eu jamais conseguiria. Eu gosto muito do conto "Felicidade Clandestina". É como se fosse um retrato de mim também... E eu hoje estou pensando no que é felicidade.

Todo mundo quer ser feliz. Muita gente diz que é feliz. Mas eu duvido de todo mundo. Partindo do básico, consulto o dicionário. Concurso de circunstâncias que causam ventura - está lá! Concordo que esse seja talvez um caminho para que a gente possa identificá-la em nós, mas a felicidade é mais que clandestina - é sorrateira, oculta. Quando a gente é feliz, a gente nunca sabe. E só se dá conta quando a sensação fica quando ela passa.

Ontem foi o show do Heaven & Hell (Black Sabbath com o Dio). Meu namorado sabia do evento há meses, mas a perspectiva de estar lá era remota. Era um sonho de menino que ele tinha de ver o famoso guitarrista canhoto Tony Iommy e o vocalista Dio em pessoa cantando no palco na cidade dele. Já confessei aqui que nunca fui fã de heavy metal e outros gêneros, mas o amor que ele tem à música em geral é tão grande que me educou para apreciar de certa maneira até o que eu jamais pensei em curtir. Estávamos sem grana para os ingressos. O primeiro lote se esgotara rapidamente e uma semana antes do show, o site do Chevrolet Hall já avisava que todos os ingressos foram vendidos - tudo esgotado! O dinheiro surgiu na véspera do show, mas ele estava descrente. Eu procurei pessoas vendendo na internet - no Orkut, no Twitter e nada! Com algum esforço, consegui convencê-lo a tentar comprar na porta, horas antes do show começar. A porta da casa de espetáculos estava toda negra - uma multidão cabeluda e vestida de preto da cabeça aos pés, surgida "do nada", fazia fila para assistir aos ídolos do metal. Meu namorado estava entusiasmado e eu acabei sendo contagiada. Nervosos e sem muita esperança, fomos direto à bilheteria - uma chance infinitesimal de conseguir comprar entradas por preço real. Qual não foi nossa surpresa quando o rapaz da bilheteria disse com uma cara desapontada: só tem um. Pronto! A sorte era dele. O ingresso era dele! Mas ele me queria junto. Fomos para fila, ingresso garantido. Encontrei uma aluna minha na fila e ficamos ainda mais empolgados pelo espetáculo. Meu namorado tentou, mas os cambistas são implacáveis - querem lucro absoluto às custas de fãs inocentes. Jurei tentar conseguir comprar do lado de fora. Segui com os olhos a fila andando, meu namorado e minha aluna felizes indo ver os roqueiros legendários. Do meu lugar, eu senti a emoção dele. Tentei, como prometido, mas a ganância me derrotou. Vim para casa esperar por ele. Depois de 3 horas, ele chegou com rosto iluminado de alegria e os olhos vermelhos, banhados pelas lágrimas da emoção. Ele mal encontrava as palavras para descrever os acontecimentos e o impacto da experiência vivenciada. Sorrateira, a felicidade dizia que estava ali. Dentro dele e dentro de mim.

Felicidade para mim é essa: a que vem a mim através do outro, a do outro sendo a minha. Eu não estava lá. E justo por não ter estado que eu sei que a minha felicidade foi tão grande quanto a dele porque ELE estava feliz. Experimentar essa felicidade é maravilhoso! Gostaria que todos pudessem encontrá-la um dia, de repente - Sem surpresas. Pois se ela é clandestina, descobrí-la é uma experiência singularmente fascinante!

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Você tem fome de que?


Do momento em que a gente nasce e dá o primeiro choro no mundo, a primeira coisa que a gente faz, o que é? Comer. A mãe dá o seio ao filho e esse para de chorar imediatamente. Comer é necessidade. Mas é uma necessidade associada - ao carinho, ao aconchego, ao afeto. Por isso, acredito que as pessoas que têm apetites vorazes quando adultas foram crianças que não receberam atenção como mereciam. Fome é sintoma - da falta, da ausência, do vazio. Usa-se dizer "tenho fome de viver". Mas e o que é viver? Como saber, se eu nem mesmo sei o que é a fome?

O dicionário fala que fome é um substantivo feminino sinônimo de apetite, urgência pelo alimento. Ainda bem que não temos fome de ar - respirar é automático; o organismo só grita se realmente falta! Entendo a fome como uma coisa muito psicológica. Acredite ou não, já passei 3 DIAS SEM COMER! Não foi um jejum sofrido, nenhum pagamento de promessa, nada disso. Eu simplemente estava feliz e essa felicidade me completava totalmente. Eu não tinha necessidade de nada, eu não desejava comer ou beber - estava completa. Naqueles dias, eu senti que eu podia passar o resto da minha vida sem botar um grão de arroz e uma gota d'água na boca. Foi uma das experiências mais fortes que eu já vivi. Não foi forçada, nem programada. Ela foi - a impressão ficou. A lição também, de alguma forma.

Fome não é coisa do estômago. É coisa do âmago, do ser. Nos anos 80, os Titãs falaram com bastante propriedade sobre o que é comida - pasto - e o que é a fome - desejo, necessidade, vontade. Eu olho para trás e vejo como há um tempo atrás eu vivia cheia de desejos sem distingui-los da necessidade. Hoje impera a vontade de (sobre)viver. A necessidade do emprego, do dinheiro para pagar as contas, de ter saúde (em tempos de gripe suína!). Ser feliz vira consequência. E as outras fomes? Fome de diversão, fome de arte, fome de música e espiritualidade? Eu tenho muita fome - insaciável e inquietante. Fome de entendimento, fome de (re)conhecimento, de pequenos e prosaícos prazeres. E você? Você tem fome de que?


quarta-feira, 8 de abril de 2009

Miserable

Estamos acostumados com o sentido comum do termo miserável - desprovido de recursos materiais: um sem-teto, um sem-dinheiro, um "nada". Esse sentido é o mais forte na nossa língua; é o que parece. Em inglês, miserable é o termo mais "completo" que expressa uma terrível infelicidade - tão grande e devastadora que pode até mesmo nos matar.

Eu me sinto absolutamente miserável quando sou pega por um resfriado. Uma "simples" gripe me derruba mais que uma bala de canhão, palavras de escárnio ou desprezo, um murro no meio da cara. Ela me reduz a um caco, a um trapo velho e em desuso, descartável... Nada me conforta. Nem mesmo a certeza de que a gripe "não mata", apesar de derrubar. Mesmo sabendo que ela vai passar e que vou ficar bem, só o fato de estar mal e não saber exatamente quando vou me sentir um ser humano outra vez é o suficiente para me deixar completamente MISERABLE - literalmente.

Hoje, ante de ir para a escola, eu assisti o último episódio da atual temporada de House M.D. Ele caiu sobre mim como uma bomba, como um raio - fulminante, mortal. Não vou "spoilear", mas o fato é que me fez pensar numa coisa importante, séria e - pasme, como eu! - verdadeira: as pessoas menos prováveis de serem miseráveis são justamente as mais miseráveis de todas! Desconfio agora e daqui pra frente de toda a pessoa que autoafirma a felicidade, a pessoa que está sempre sorrindo, a solícita, a que sempre está ali para te ajudar. Porque é ela a mais infeliz, a mais solitária, a que mais clama por socorro - essa é a sua maneira de pedir. É por isso que eu gosto de ver House. Essa série sempre me leva a profundas reflexões sobre o comportamento humano - além da mera filosofia existencialista e do senso comum.

E o que tem tudo isso a ver como fato da gripe me deixar tão "miserable"? A gripe é meu grito de socorro. É o que me mostra o quanto eu me sinto miserável por não ser reconhecida pelo que faço, pelo que sinto, pelo que sou... A gripe me aponta como sou sensível à indiferença do outro e o quanto o que ele pensa ou sente sobre mim me afeta...

Já identifiquei em House algumas pessoas que eu conheço. Mas dessa vez, eu absurdamente me identifiquei com um personagem, reconhecendo em mim tudo que havia nele. Por isso, hoje, sou capaz de encarar a minha própria miséria. E não vou culpar a gripe.

sábado, 4 de abril de 2009

Remember who you are - 60º post

Poucas pessoas sabem, mas a idéia original para o "Rei Leão", veio de um conto antigo da Índia. É um conto muito bonitinho... O próprio Disney já havia aproveitado esse conto hindu e fez um curtinha Lambert - The Sheepish Lion, em 1952. Acredito que o Ocidente conheceu essa estória através de dois monges que viveram nos Estados Unidos - Swami Vivekananda, que contou essa história em uma conferência em 1894, e Swami Paramahansa Yogandanda, que também difundiu esse e outros contos da Índia em seus livros e conferências. As estorinha tem várias versões. Resumidamente: um leãozinho se perde da mãe e uma ovelha, que perdera seu filhote, o adota como seu. O leãozinho, criado no meio das ovelhas, não reconhecia sua natureza felina, carnívora e feroz. Comportava-se como uma ovelhinha, a balir e pastar. Um dia, um leão veio atacar seu rebanho e o leão-ovelha, todo amedrontado, fugia. Isso causou estranheza no leão, que vendo a reação de um membro de sua espécie quis saber porque se comportava daquela maneira. Ele repetia: "Sou uma ovelha, não me coma, por favor". E o outro leão disse: "Não você não é uma ovelha. É um leão igual a mim". O leão-ovelha tremia de medo. O leão deu um rugido e disse: "Faça igual a mim". E o pobre animal se pôs a balir: "Eu não sei, sou uma ovelha". O leão, furioso, levou o até uma poça d'água e disse: "Olhe seu reflexo! Você é um leão!" O leão-ovelha ficou muito impressionado, mas com ajuda do novo amigo, recobrou sua verdadeira natureza.

Eu gosto tanto desse conto - Tanto quanto o do Patinho Feio - pois é uma das lembranças mais doces e felizes da minha infância. Eu assisti Lambert - o Leão Ovelha no programa Balão Mágico. É uma alegoria à verdadeira natureza humana: forte, poderosa. Vivemos como se fôssemos ovelhas medrosas o tempo todo, tremendo diante dos obstáculos, baixando nossas cabeças passivamente quando deveríamos rugir e lutar! O homem tem uma força desconhecida dentro de si capaz de mudar o mundo, mas não acreditamos nela, como o Lambert que pensava que não passava de uma ovelhinha. A estória do Rei Leão segue o mesmo princípio. Simba, cheio de culpa, preferiu esquecer sua verdadeira natureza, fugindo da responsabilidade que representa ser "um leão". É uma metáfora para coragem que precisamos ter para enfrentar as dificuldades e todo sofrimento da vida, assumindo a verdadeira natureza da nossa alma.

Essa semana eu disse aos meus alunos que Bakthin trouxe para literatura uma espécie de Lei de Lavoisier - em literatura (arte) nada se "cria", nada se perde - tudo se transforma. É lindo ver a mesma estória simples e maravilhosa em diversas formas, por diversos ângulos e nuances - sempre ricas e coloridas, para o nosso deleite...

Para quem quiser ler o conto por Swami Vivekananda, clique aqui.








terça-feira, 17 de março de 2009

Sem coleira: A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera

Acordei sonhando. O paradoxo de um pesadelo feliz me ocorreu. Um ente querido morreu - no sonho. Não houve agonia, nem pesar. Se houve saudade ou tristeza, só posso imaginar - pelo alívio que tive ao despertar.

Uma urgência me fez ligar a tv e o dvd para terminar de ver um filme como se fosse a última coisa a fazer na vida. Há filmes que a gente vê e nem se dá conta do tempo que passou. Esse, interrompi nos 40 primeiros minutos - dias atrás - para poder dormir. E várias outras vezes hoje pela manhã - não conseguia suportar o impacto das cenas, das falas - sua leveza, seu peso sobre mim... Daniel Day-Lewis, um menino e Juliete Binoche uma menina. Dois personagens intrigantes - duas metades de mim: a masculina e a feminina - Tomas e Teresa. Adaptado do famosíssimo romance do escritor tcheco Milan Kundera, "A Insustentável Leveza do Ser" teve, sobre mim, o impacto de uma pluma pousada ao acaso na ponta do meu nariz. Vi o filme, estou lendo o livro. Kundera não mais aprovou, após o lançamento desse filme em 88, nenhuma adaptação de suas outras obras para o cinema. Mas isso não quer dizer que a adaptação não tenha sido boa. Ao contrário, penso que é uma das únicas que eu já gostei até hoje.




Tão leve fiquei assistindo ao filme e começando a leitura do livro, quanto pesado foi o meu dia. Um insucesso, não um fracasso. Dois - o outro, horas mais tarde. E eu pensando o dia inteiro em amor, ciúme, posse, liberdade... Viver feliz ou morrer feliz?

Eu vivo relativamente só. Tenho a companhia virtual das pessoas que me aconteceram por acaso e a presença real e significativa do animal mais amoroso que eu jamais conheci em meus anos de Balzac. Ela é um pouco Teresa - é minha dona e me "controla". Eu, para ela, sou Tomas: amo-a compaixão. É real: tudo que temos é uma a outra. Tomas e Teresa tinham Karenin e a lição de vida mais doce e profunda do filme/livro é dado por ela.

Assim, depois do peso do dia, sentido a leveza da noite, após um dia quente e semi-úmido, minha Karenin me esperava. Ela me pede com os olhos. Eu sei... Entendendo, sem dúvida alguma, sua linguagem silenciosa, peguei sua coleira mas não a coloquei. Hoje, pela primeira vez, ela passeou sem coleira. Tão linda a liberdade (ainda que vigiada) de um cão! Poucas vezes na vida tive uma experiência tão aparentemente insignificante e, ao mesmo tempo, tão plena de significância. Havia uma alegria muito maior nos passos dela - ligeiros, mas cuidadosos. O caminho, conhecia de cor. Conduziu-me. Não houve medo. E seguimos livres na noite amena.