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segunda-feira, 6 de julho de 2009

Carta para uma criança




Para Lucas Belli

É difícil enxugar as lágrimas de uma criança quando a dor que ela sente não é pelo tombo da bicicleta, da topada no futebol; porque essa dor é daquelas que não dá pra curar com merthiolate - que hoje em dia nem arde! - e nem soprando e dizendo "antes de casar sara" vai fazer melhorar...

Sabe, criança... A gente cresce e esquece as coisas boas da infância - a pureza, a inocência (ninguém sabe perdoar melhor que uma criança uma ofensa ou uma briga feia), a alegria com as coisas mais simples da vida... Adulto cresce achando que agora ele vai poder tudo que antes não podia. Esqueceu de fazer a coisa mais importante que a gente veio fazer no mundo - APRENDER. Adulto acha que sabe tudo e não sabe nada, não entendeu, não aceitou, não compreendeu, não aprendeu... E gente grande machuca uns aos outros e nem nota que machuca você também, eu sei.

Posso te dar um chocolate ou prometer te levar no parque para fazer você esquecer... Mas eu sei não vai ajudar. Já fui do seu tamanho e fizeram isso comigo. Nem assim parou ou doeu menos. Assim, o melhor que posso fazer por você, minha criança, é dizer a verdade, mesmo temendo que ela faça doer ainda um pouco mais... O que faz doer (e me atrevo a dizer que sempre) é o amor: demais - o que você tem para oferecer e não aceitam ou rejeitam - e de menos - o que você não recebe, mesmo merecendo tanto...

Queria, do alto da minha sabedoria de gente grande, ser capaz de indicar o exato remédio que vai fazer sarar seu machucado. Mas eu não sei... Nem o que dizer, nem o que fazer. Mas, olha... A dor do amor é uma dor bonita, sabe? É a que faz a gente saber que tem um coração. Portanto, por mais estranho que pareça, você não deve sofrer por isso. Ter um coração é uma coisa maravilhosa! Tem muita gente que parece ter pedra no lugar... Se você chora porque está doendo, é porque você tem um e isso te torna especial.

Criança, eu sei que dói demais crescer. E posso dizer que essa dor é uma professora muito brava e exigente. Se a gente não entende a lição, ela vem toda rigorosa! Ela não faz por mal e nem quer que a gente sofra. Ela só quer ensinar... E aprender, meu menino, é a coisa mais legal que a gente pode fazer a vida inteira!




domingo, 28 de junho de 2009

Oásis

Para Michael Jackson (In Memorian)

A morte de Michael Jackson chocou todo mundo. Em várias declarações, ouvi que ele sempre foi o tipo de pessoa que ninguém imagina que vai morrer. O impacto da notícia tida como improvável é o que nos indica quão frágil é a vida; e ainda que possa não parecer, tão rara... Tão rara... Quase sempre é árida, seca. E comemos areia que, às vezes, também entra em nossos olhos, machucando, cegando... Mesmo assim, todos queremos viver, continuar respirando esse ar denso e torturante. E ele queria, como queria...

Ontem, vi um especial da vida de Michael feito em 88. Puxa, eu realmente fiquei emocionada! Por que as pessoas não tentaram vê-lo daquela forma bonita quando houve aqueles escândalos em torno de sua vida pessoal? Por que agora - só agora que ele já está morto e não pode ouvir nem ver o quanto ele era realmente admirado - as pessoas falam essas frases feitas? Prefiro não comentar...

A vida dele pode parecer, para muita gente que acha que fama e dinheiro resolveria a aridez da vida, uma maravilha. E tudo indica que não era. A dor da alma passa para o corpo. E que recurso uma pessoa pode achar que não seja uma droga - Demerol, Rivotril, Fluoxetina, Paroxetina - qualquer uma que possa aplacar uma dor surda e, ao mesmo tempo, gritante? Quem pode condenar alguém por querer fazer com que a dor cesse, quem pode?

Nas últimas semanas, tenho sofrido silenciosamente. Analgésicos e calmantes tem tido, para mim, um tremendo poder de sedução. Eu resisto o quanto posso. Mas me entrego quando dói demais. Ninguém deve ficar com dor - ninguém.

Existe uma dor que não sara com remédio - é a dor da solidão, a dor de não saber o que fazer quando não há o que fazer, a dor de não saber esperar, de não ter confiança nem fé no amanhã, a dor do niilismo, da falta do "algo a mais" que a gente nem sabe o que é exatamente.

Hoje estava pensando num remédio pra essas dores. Acho que encontrei um que talvez sirva para quem possa precisar. Ele não tem preço, não se compra em farmácia. Ninguém pode nos dar - só a gente mesmo, quando quiser, quando precisar. Ele está dentro de nós, numa parte do nosso ser que a gente dá o nome de memória e é um derivado da lembrança. Meu remédio é aquela coisa mágica que faz os Dementadores desaparecerem, que conjura o Patrono - uma lembrança boa, a melhor que pudermos imaginar...

[Um dia de quase outono. Uma praia deserta, o cheiro do mar e barulho das ondas batendo nas pedras. Uma tremenda suavidade e um sentimento de eternidade indescritível...]

Alvorecer com a Pta. Negra ao S do Morro da Armacao de Itapocoroi (Penha - SC) no través


Dei a ele (esse meu remédio) o nome de Oásis. Seria algo como o nome comercial. O nome real - o "composto ativo" - tem quatro letras...

Descanse em paz, Michael!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

A finalidade da minha existência

Um dos clássicos da MPB, favorita de muita gente, a canção "O que é, o que é?", do Gonzaguinha nos traz uma bela reflexão sobre uma palavra - um substantivo, um verbo: vida, viver. Ele e todos que gostam de cantar essa música, preferem a "pureza da resposta das crianças". Outros, todavia, preferem a "objetividade" da resposta de Schopenhauer: "Viver é sofrer". Ambos preocuparam-se em definir o que é aquilo que chamamos vida, dar um conceito sobre o viver. Mas nenhum dos dois se ocupou em responder sobre a finalidade da vida.

Particularmente, gosto da letra de Gonzaguinha - otimista. Entretanto, não posso negar que Schopenhauer - pessimista - me soe muito mais realista. Desde o momento que chegamos nesse mundo, sofremos. Somos arrancados do útero de nossas mães - quentinho, seguro - e somos obrigados a respirar! Ninguém se lembra como é a sensação. Deus deve ter sido muito generoso por não deixar que a gente se lembre disso pois me parece ser um processo muito, muito doloroso... Já parou pra pensar quanto sofrimento passa um pequeno ser apenas por (lutar para) viver? É dor de barriga, dor dos dentes nascendo, uma série de doenças e dores expressas no choro estridente de quem não sabe ainda suportar em silêncio a dor física.

Hoje, não por acaso, pensei em todas as dores sofridas - físicas e psicológicas - pelas quais passei nessas mais de 3o primaveras: os joelhos ralados das quedas, o dia em que eu quebrei o braço esquerdo (anos mais tarde quebraria também o direito), a primeira (única e última) surra que eu levei do meu pai... As doenças: catapora (ainda me lembro do corpo febril e das feridas que coçavam terrívelmente), rubéola, cachumba... e os inúmeros resfriados (e as injeções de Bezetacil). Depois, as terríveis cólicas menstruais e as dores mais excruciantes do mundo: enxaqueca crônica, cólica renal e... a dor de um aborto espontâneo. É tanta dor física que eu já experimentei que costumo dizer que quando eu morrer, nem vou saber que estou morrendo. As psicológicas: o deboche por ser magra demais, ser preterida no jardim da infância pela professora por não ser a "mais bonita", a "mais rica" e a "mais inteligente", ficar sempre em último lugar na família e ter que aprender a fazer tudo sozinha desde muito, muito cedo. Depois, o escárnio por ser gorda demais, o desprezo por ser "inteligente demais"; amar uma pessoa - aquela que a gente pensa que é pra sempre - e ser abandonada por ela e preterida por outra. Amar outra pessoa e ser abandonada (de novo), sem a menor explicação. Amar uma pessoa - a que você pretende e tem fé que seja finalmente aquela que te completa - e ouvir dela todas aquelas coisas que te fazem sentir a agonia de estar vivo, de "ter que" continuar existindo, apesar de.

É, Schopenhauer tem toda razão. Nem as pequenas, nem as grandes alegrias, cobrem a multidão dos meus sofrimentos. Todavia, como todo mundo, nas palavras de Gonzaguinha, não quero a morte. Não porque a temo. Ao contrário, todas as dores que sofri e que tenho a certeza absoluta de que ainda vou experimentar até que o último sopro de vida deixe meu corpo me fazem saber que morrer é a consequência que, entendida, deve ser simplesmente aceita.

E sobre a finalidade da Vida, afinal? Que me perdoem o imenso preâmbulo para o registro de algo muito, muito simples sobre a minha razão de existir: eu existo para fazer feliz as pessoas. Eu quero isso. Eu vim a esse mundo para trazer alegria, amor, paz e felicidade para quem estiver no meu caminho. É por isso que eu estou aqui. É por isso que eu quero viver. Descobri, muito de repente, que fazer as pessoas felizes é a maior alegria que podemos ter - uma que não se compra com dinheiro - e a maior tristeza que podemos experimentar é de causar o sofrimento dos outros. Se a grande luta dos (sobre)viventes é ser feliz, a finalidade da minha existência, enquanto eu tiver forças para continuar nesse mundo, é essa: nunca magoar ou ferir quem quer que seja e proporcionar felicidade. Assim, meus amigos, entre Gonzaguinha e Schopenhauer, fico com Guilherme Arantes e o seu Brincar de Viver...



P.S:Antes de escrever esse post, conversei longamente com uma amiga querida - a @Dea_Brat - sobre a vida e aqui ela escreveu algo bastante bonito sobre o que ela pensa...

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Miserable

Estamos acostumados com o sentido comum do termo miserável - desprovido de recursos materiais: um sem-teto, um sem-dinheiro, um "nada". Esse sentido é o mais forte na nossa língua; é o que parece. Em inglês, miserable é o termo mais "completo" que expressa uma terrível infelicidade - tão grande e devastadora que pode até mesmo nos matar.

Eu me sinto absolutamente miserável quando sou pega por um resfriado. Uma "simples" gripe me derruba mais que uma bala de canhão, palavras de escárnio ou desprezo, um murro no meio da cara. Ela me reduz a um caco, a um trapo velho e em desuso, descartável... Nada me conforta. Nem mesmo a certeza de que a gripe "não mata", apesar de derrubar. Mesmo sabendo que ela vai passar e que vou ficar bem, só o fato de estar mal e não saber exatamente quando vou me sentir um ser humano outra vez é o suficiente para me deixar completamente MISERABLE - literalmente.

Hoje, ante de ir para a escola, eu assisti o último episódio da atual temporada de House M.D. Ele caiu sobre mim como uma bomba, como um raio - fulminante, mortal. Não vou "spoilear", mas o fato é que me fez pensar numa coisa importante, séria e - pasme, como eu! - verdadeira: as pessoas menos prováveis de serem miseráveis são justamente as mais miseráveis de todas! Desconfio agora e daqui pra frente de toda a pessoa que autoafirma a felicidade, a pessoa que está sempre sorrindo, a solícita, a que sempre está ali para te ajudar. Porque é ela a mais infeliz, a mais solitária, a que mais clama por socorro - essa é a sua maneira de pedir. É por isso que eu gosto de ver House. Essa série sempre me leva a profundas reflexões sobre o comportamento humano - além da mera filosofia existencialista e do senso comum.

E o que tem tudo isso a ver como fato da gripe me deixar tão "miserable"? A gripe é meu grito de socorro. É o que me mostra o quanto eu me sinto miserável por não ser reconhecida pelo que faço, pelo que sinto, pelo que sou... A gripe me aponta como sou sensível à indiferença do outro e o quanto o que ele pensa ou sente sobre mim me afeta...

Já identifiquei em House algumas pessoas que eu conheço. Mas dessa vez, eu absurdamente me identifiquei com um personagem, reconhecendo em mim tudo que havia nele. Por isso, hoje, sou capaz de encarar a minha própria miséria. E não vou culpar a gripe.

terça-feira, 17 de março de 2009

Sem coleira: A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera

Acordei sonhando. O paradoxo de um pesadelo feliz me ocorreu. Um ente querido morreu - no sonho. Não houve agonia, nem pesar. Se houve saudade ou tristeza, só posso imaginar - pelo alívio que tive ao despertar.

Uma urgência me fez ligar a tv e o dvd para terminar de ver um filme como se fosse a última coisa a fazer na vida. Há filmes que a gente vê e nem se dá conta do tempo que passou. Esse, interrompi nos 40 primeiros minutos - dias atrás - para poder dormir. E várias outras vezes hoje pela manhã - não conseguia suportar o impacto das cenas, das falas - sua leveza, seu peso sobre mim... Daniel Day-Lewis, um menino e Juliete Binoche uma menina. Dois personagens intrigantes - duas metades de mim: a masculina e a feminina - Tomas e Teresa. Adaptado do famosíssimo romance do escritor tcheco Milan Kundera, "A Insustentável Leveza do Ser" teve, sobre mim, o impacto de uma pluma pousada ao acaso na ponta do meu nariz. Vi o filme, estou lendo o livro. Kundera não mais aprovou, após o lançamento desse filme em 88, nenhuma adaptação de suas outras obras para o cinema. Mas isso não quer dizer que a adaptação não tenha sido boa. Ao contrário, penso que é uma das únicas que eu já gostei até hoje.




Tão leve fiquei assistindo ao filme e começando a leitura do livro, quanto pesado foi o meu dia. Um insucesso, não um fracasso. Dois - o outro, horas mais tarde. E eu pensando o dia inteiro em amor, ciúme, posse, liberdade... Viver feliz ou morrer feliz?

Eu vivo relativamente só. Tenho a companhia virtual das pessoas que me aconteceram por acaso e a presença real e significativa do animal mais amoroso que eu jamais conheci em meus anos de Balzac. Ela é um pouco Teresa - é minha dona e me "controla". Eu, para ela, sou Tomas: amo-a compaixão. É real: tudo que temos é uma a outra. Tomas e Teresa tinham Karenin e a lição de vida mais doce e profunda do filme/livro é dado por ela.

Assim, depois do peso do dia, sentido a leveza da noite, após um dia quente e semi-úmido, minha Karenin me esperava. Ela me pede com os olhos. Eu sei... Entendendo, sem dúvida alguma, sua linguagem silenciosa, peguei sua coleira mas não a coloquei. Hoje, pela primeira vez, ela passeou sem coleira. Tão linda a liberdade (ainda que vigiada) de um cão! Poucas vezes na vida tive uma experiência tão aparentemente insignificante e, ao mesmo tempo, tão plena de significância. Havia uma alegria muito maior nos passos dela - ligeiros, mas cuidadosos. O caminho, conhecia de cor. Conduziu-me. Não houve medo. E seguimos livres na noite amena.