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quarta-feira, 5 de maio de 2010

It's (too) hard to say goodbye - R.I.P Krueger


Eu queria que o amanhã não chegasse, que não houvesse amanhã. Queria que você ficasse pra sempre comigo, Totó...Já sinto tanto a sua falta... Essa casa, a sala, os quartos, o banheiro... o quintal... tudo ficará muito grande sem você preenchendo tudo! Como seria bom se você pudesse me dizer o que eu posso te falar de várias formas: te alimentando, te acariciando, brincando com você ou simplesmente dizendo: 'eu te amo, sabia? eu te amo muito, muito, muito... no ritmo do meu coração!' Eu sei que é isso que você diz, à sua maneira, mas eu não consigo aceitar ter que decidir se você deve continuar vivendo ou não. O papel de Deus não serve pra mim, Totó...  
Nunca haverá outro você. Ninguém preencherá o seu lugar. Você é único no mundo. Meu mundo ficará muito mais triste sem os seus latidos...Por enquanto, enquanto todos estão no trabalho realizando suas tarefas, realizando seus sonhos, te vejo aqui do meu lado deitado no seu paninho... tão inocente! Você não me diz que dói, mas eu sei que está doendo, que você está doente e que precisa partir. Mas preciso suportar a dor de te perder para sempre porque eu não posso suportar a dor de te ver sofrendo. 

Sei que você seria capaz de sofrer até o fim por mim e por todos nós que te amamos tanto, mas o preço da nossa felicidade não deve e nem pode ser a sua dor, mesmo que a sua dor seja também a sua felicidade. Prometo que vou ser muito feliz, do jeito que eu sei que você quer, para honrar sua memória e todas as alegria que você nos deu todos esses anos. Eu não te amo mais ou menos que antes de você ter que partir. A cirucusntância é que está me obrigando a enxergar como meu amor por você é tão grande que não cabe dentro de mim... 
Perdoe-me a covardia, mas eu não vou conseguir ver você indo. Gostaria de ser forte e segurar na sua pata antes de você dormir o sono dos justos, dos que não têm culpa, dos que merecem o Céu. Permita-me, então, ficar do seu lado pelo pouco tempo que ainda resta. 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Prece de Gratidão

Existe algo inexplicável que os homens chamam de Deus. Por convenção, eu usarei esse nome para expressar coisas que eu preciso dizer.

Deus, obrigada. Obrigada por ter criado todos os mundos. Obrigada por ter pintado o céu e a terra de tantas cores tão lindas que meus olhos mal podem distinguir entre tantas nuances perfeitas.

Obrigada pela chuva que molha as plantas, que mata a sede. E que destrói os morros, desbarranca casas e deixa pessoas desabrigadas - quando não morrem em função disso.

Obrigada pelo sol e pelo ar que mantêm tudo que existe. Obrigada mesmo quando eles causam a morte e a intoxicação.

Obrigada pelo sangue que corre em minhas veias que me permite estar aqui dizendo essas coisas que serão (ou não) lidas por quem acredita (ou não) que Você existe. Obrigada ainda assim quando ele é derramado em "Seu Nome" por ódio, vingança, violência...

Obrigada Deus, por ter arquitetado tão bem a manutenção do corpo... Obrigada pela fome, pela sede, pela angústia, pela solidão, pelo sofrimento meu e de todo ser vivente.

Obrigada pela capacidade de discernimento que me habilita a criar e desenvolver algo que seja útil para todas as pessoas. Igualmente pelo mau que existe: pela dor, pela ferida, pela falta de cura - das doenças do corpo e da alma. Obrigada por permitir que eu veja mesmo aquilo que não quero ver.

Obrigada pela salvação assim como pela danação eterna - se é que isso mesmo existe. Obrigada, meu Senhor, pelo milagre da vida assim como pelo milagre que é a morte - quando nos ensina a importância das coisas e das pessoas.

Obrigada por todos meus amigos e igualmente por aqueles que pensam ser meus inimigos - eles me fazem mais forte, mais compassiva e paciente. Obrigada meu Deus pela presença assim como pela falta - de amor, de carinho, de atenção, de cuidado. Obrigada por tudo que eu aprendi e pelo que ainda não entendo.

Obrigada, oh Meu Doce Senhor, por te ver no feio, no horrível, no triste, no ignorante, no imperfeito assim como te vejo no belo, no maravilhoso, no fantástico e no perfeito porque se eu não for capaz de Te ver em todas as coisas, não sou digna de dizer que existo.



sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Dia da (In)Consciência Negra


Honestamente, acho uma PALHAÇADA parar uma cidade - várias cidades - para celebrar a (in)diferença. Sim, porque ter consciência da negritude é desconsiderar a consciência de ser humano, em primeira instância. Já parou para pensar no absurdo que seria ter um dia da consciência branca? Me pergunto: consciência tem cor?

Por mais que as pessoas queiram fingir, a cor negra está social e historicamente associada ao mal, ao errado, ao perverso, ao ruim. Por que? É o que precisamos descobrir. Se pensássemos na cor preta* como ausência absoluta de cor, a ideia de defender um dia em prol da ausência absoluta das outras cores seria um processo absurdamente excludente e paradoxal ao propósito que a data veicula, concorda?

Negros são os propósitos de quem defende a supremacia de uma raça sobre a outra desconsiderando que, científica e biologicamente, a espécie prevalece - a espécie humana. Negra é a consciência das pessoas que ofendem, que maltratam sem motivo, que difamam, que invejam e tentam destruir a felicidade dos outros porque não quiseram (e não puderam) encontrar o caminho para a deles própria. Negras são as línguas ferinas que desferem palavras de rancor, como se gritassem: OLHE PARA MIM, VEJA COMO SOU INFELIZ (e consequentemente sem COR ALGUMA - NEGRO - SEM IDENTIDADE). Eu lamento muito mesmo essa falta de consciência... Profundamente!

Se eu tivesse a autoridade para definir como deveria ser celebrada essa necessidade de consciência - independentemente da cor - eu apoiaria o Dia da Consciência da Alteridade - o dia do respeito às diferenças individuais, do respeito pela condição social, econômica, física, emocional, psicológica e sexual das pessoas. Poderia ser qualquer dia o que deveria ser lembrado todos os dias. Eu apoiaria o dia 13 de maio - dia da abolição da escravatura no Brasil - para que pudéssemos refletir como as relações de escravidão e exploração do trabalho - a mais valia relativa e a absoluta que ainda prevalecem nessa nossa sociedade agonizantemente capitalista, entrando na era da global informação.

Eu desejo que todos que comemoraram essa data como um feriado possam ter descansado com suas famílias, visto um filme bonito, lido um livro interessante, que tenham conversado e sorrido com amigos queridos. Desejo que possam ter visto um mundo mais colorido, um mundo onde todas as cores têm seu valor, sua razão de existir e de enfeitar a vida.




*Preto: A cor preta ou negra é a mais escura do espectro de cores. É definida como "a ausência de luz", em cores-luz, ou como "a mistura de todas as cores", em cores-pigmento. É a cor que absorve todos os raios luminosos, não refletindo nenhum e por isso aparecendo como desprovida de clareza.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Da arte de ter amigos

Para uma nova velha amiga

Muita gente se diz impressionada com a quantidade de amigos que eu tenho. Difícil um dia sair a passeio e não esbarrar com um de meus amigos. Ainda mais depois do advento das redes sociais: o número cresceu em progressão geométrica. Mas sobre ter amigos, uma experiência da minha mãe deu-me uma lição inesquecível...

Minha mãe nem era balzaquiana quando tudo aconteceu. Na flor das suas 29 primaveras, longe da família, confinada em uma cidadezinha minúscula do Vale do Aço, sua melhor amiga era sua (vi)Zinha. Mamãe não fazia nadinha sem consultar sua (amiga)Zinha - esse era o apelido carinhoso que ela tinha: Zinha. Trocavam receitas, fofocavam... Minha mãe sofria muito longe da família dela e punha sob os ombros da amiga seus lamentos, mágoas, lamúrias. Ingenuamente (eu quero acreditar), a amiga de minha mãe caiu na bobagem de confessar, no salão de beleza do bairro, para uma vizinha da rua, que não aguentava mais os choramingos de minha mãe. A dona do estabelecimento, "amiga" da minha mãe (fiel cliente), contou tudo para ela... O resultado disso tudo fez da minha mãe quem ela é hoje e um pouco do que sou agora. Uma amizade (?) foi destruída por uma fofoca "bem-intencionada". Em quase 30 anos, minha mãe jamais teve outra amiga ou amigo novamente. Vi o trauma da minha mãe e nunca pude compreendê-lo plenamente, até hoje.

Para entender minha mãe eu precisei entender o que quer dizer ter um amigo e perdê-lo. Ter um amigo e ser traído por ele. Ter um amigo e ser magoado por ele. Ter um amigo, amá-lo para depois odiá-lo até a mais completa indiferença. Devo dizer, com extrema honestidade, que essa dor não é apenas indesejável, mas inolvidável. Quem é ferido por um amigo jamais esquece. Jamais...

Para quem pensa que eu tenho muitos amigos, lamento causar desilusão, mas devo dizer que não os tenho. Mal me conheço e eles não me conhecem - ainda que pensem convictamente o contrário. Deus, tanta gente me lê, fala comigo, sorri, brinca, sem nunca perguntar sobre as minhas angústias, meus problemas... Estamos - eu e meus amigos - todos sós. Desconhecidos uns dos outros. Ignorantes de nós mesmos...

A arte de ter - colecionar, como números - amigos tornou-se completamente banal. Pessoas se medem pelo tanto de "amigos" que elas têm - e fazem de tudo para tê-los e mantê-los... Mas são poucos os que se dedicam à arte de sê-lo...



quarta-feira, 9 de setembro de 2009

No regrets


Arrepender-se em português é um verbo reflexivo (também chamado pronominal). Filosoficamente, poder-se-ia entender que ninguém pode sentir arrependimento alheio. É como identidade - intransferível. A presença do pronome define o verbo - identifica completamente a ação com quem a realiza - o sujeito com seu objeto. E como expressar em palavras o que arrepender-se quer dizer?

O recurso mais provável é tentar buscar na etimologia algumas explicações. Assim como a palavra saudade, arrepender-se é um verbo que não tem uma tradução precisa em outros idiomas. Vindo do latim repoenitere, (seu sentido se relacionaria à reposição de algo ou alguma coisa "que falta"; re-poenitere: repor a pena - poena = dor -, sofrimento) a palavra está arraigada à cultura judaico-cristã em que o arrependimento é o "merecido castigo" autoimposto do pecador. Ninguém impõe este sofrimento a ninguém. Ele surge única e exclusivamente para torturar a mente e o coração daquele que se acusa de alguma falta (pecado).

O termo regret em inglês, que teria origem no francês regreter, que por sua vez teria vindo do germânico grāta, não se relaciona com o sentido da origem latina do verbo arrepender-se, mas expressa que o arrependido precisa não apenas de autopunição, mas expor seu sofrimento ao mundo (que explica a origem germânica em grāta, que significa expressar profundo sofrimento com lágrimas).

Assim, poderemos entender o ato de arrepender-se como uma atitude "cristã". Mas, por que? A autopunição apaga ou remove a falta cometida? Em que o sofrimento, o lamento por um "pecado" cometido ajudaria? Por que então nos autoimpomos tal castigo?

Arrepender-se é sofrer duas vezes, como se o sofrimento em si mesmo já não doesse o suficiente. Entretanto, por outro lado, pode representar um lampejo de humildade, de reconhecimento das nossas fraquezas, de que somos humanos e erramos...

Reconhecer falhas e erros em nossas atitudes nos torna (mais) humanos. Mas nos autoflagelar por elas, nos desumaniza. Porque ser humano é ser capaz de aprender - com os erros, com os acertos, observando, agindo - reponsabilizando-se pelos próprios atos, conscientemente.



quarta-feira, 2 de setembro de 2009

O que mais machuca


Uma amiga muito querida está namorando (virtualmente) um americano. Conto de fadas: cara gato, com uma história triste. Se diz apaixonado e quer casar com ela. Ela está nas nuvens. Feliz como nunca! (E quem, no lugar dela, não estaria?) Ela é uma pessoa acima de qualquer suspeita, tem um coração enorme... O nome dela praticamente é amor! E eu estou morrendo de medo - por ela.

Às vezes eu fico imaginando porque é que a gente se deixa levar por uma ilusão, porque a gente se engana com as pessoas... Acho que por mais que no fundo a gente saiba que tudo não passa de uma grande mentira quer acreditar que existe amor perfeito, amizade perfeita. E nem é só por isso - precisamos manter o nosso ego bem massageado - queremos estar rodeado de amigos, sermos mimados, reconhecidos como maravilhosos, lindos, perfeitos! E quem se importa com a verdade? Nem nós, nem os outros. Fingimos uma mentira, vivemos a mentira - para nós mesmos. E ninguém - ninguém! - se interessa em olhar para dentro de si para entender porque queremos preencher os vácuos internos com mentiras. É isso o que mais machuca...

Minha amiga me disse que está perdendo a hora, compromissos marcados - tudo por causa do romance virtual. Minha resposta foi: Você pode perder tudo na vida - menos dinheiro e juízo! Foi uma resposta jocosa. Se eu tivesse falado seriamente e do fundo do coração, teria dito: você pode perder tudo - hora, dinheiro, qualquer coisa - menos a SI MESMA.



Edit: o clip não tem nada a ver com o post. eu só me lembrei da música por causa do título dela que é o mesmo do meu texto. o clip é bem triste... se vc é sensível, prepare-se pra dar uma chorada básica.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

ArrumAÇÃO

Na minha velha casa nova há muito o que fazer. Tanta coisa eu deixei, tanta coisa eu trouxe. E a muDANÇA me fez remexer em meus pertences. Papéis, fotografias, roupas e mais roupas. Guardados, intocados. Meus, mas não me pertenciam mais já há muito tempo. Quanta coisa eu juntei em pouco mais de um ano e quanta coisa eu deixei há tanto tempo que eu nem sabia? Resolvi jogar TUDO fora. Dar o que me serve, mas não uso. O que não me serve mas que pode servir para alguém...

Várias coisas me desfiz sem olhar duas vezes. Mas encontrei tantas coisas das quais não consigo me desapegar... Cartas da minha melhor amiga, provas do tempo do colégio, carta dos meus penpals, fitas k-7 gravadas para mim. Não tive coragem, não tive... Havia uma fita que meu namorado gravou pra mim quando éramos apenas bons amigos. Uma seleção de músicas memoráveis para ele, que passaram a ser para mim... Eternamente.

Lado A

Giz - Legião Urbana
Border town - The Walkabouts
My aching heart - Ofra Haza
Solitare - Carpenters
Superstar - Carpenters
Your song - Elton John
Skyline Pigeon - Elton John
Meu mundo e nada mais - Guilherme Arantes
Êxtase - Guilherme Arantes
Cassiel's Song - Nick Cave
Vincent - Don McLean

Lado B

And more again - Love
Jealous guy - John Lennon
A whiter shade of pale - Procol Harum
About you - Jesus and Mary Chains
Let it grow - Renaissance
Lotta Love - Neil Young
What's the matter here - 10.000 Maniacs
As tears go by - Rolling Stones
Angie - Rolling Stones
Tears - Rush
Where the wild roses grow - Nick Cave
Shanti Mantra - Ravi Shankar

Querido, essa seleção memorável eu guardarei pra sempre, sempre... Enquanto eu viver, vou saber que essa é sua música predileta.

Ainda há muito que ainda não vi. Muito que ainda gostaria de não ver para não ter medo de não deixar ir, de me apegar. Mas essa semana, que é a última das férias, me pede para agir. Há muita coisa que me aguarda até a próxima sexta-feira. Tenho que abrir espaço - não só o físico, mas mental, para as coisas novas nascerem. Porque é tempo de criATIVIDADE!

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Novo tempo

A gente caminha... A gente segue em frente. Mas, às vezes, o que a gente mais precisa, ficou lá pra trás. É preciso ter humildade, é preciso ter mais que isso: coragem. Voltar atrás e recuperar o que foi "perdido". Nada foi perdido de fato. Sempre esteve ali. Bastou experimentar o gosto amargo do abandono, da solidão...

Não sou muito emotiva, ainda que possa parecer. Mas sou sensível... Tão sensível quanto um papel feito de arroz - me quebro, me parto, me machuco ao mais leve toque. E mesmo a felicidade, a alegria me perturbam, me incomodam, porque não cabem dentro de mim.

Estou onde deveria estar - para aprender, para valorizar, para crescer. E vou voltar para onde eu nunca saí...

domingo, 28 de junho de 2009

Oásis

Para Michael Jackson (In Memorian)

A morte de Michael Jackson chocou todo mundo. Em várias declarações, ouvi que ele sempre foi o tipo de pessoa que ninguém imagina que vai morrer. O impacto da notícia tida como improvável é o que nos indica quão frágil é a vida; e ainda que possa não parecer, tão rara... Tão rara... Quase sempre é árida, seca. E comemos areia que, às vezes, também entra em nossos olhos, machucando, cegando... Mesmo assim, todos queremos viver, continuar respirando esse ar denso e torturante. E ele queria, como queria...

Ontem, vi um especial da vida de Michael feito em 88. Puxa, eu realmente fiquei emocionada! Por que as pessoas não tentaram vê-lo daquela forma bonita quando houve aqueles escândalos em torno de sua vida pessoal? Por que agora - só agora que ele já está morto e não pode ouvir nem ver o quanto ele era realmente admirado - as pessoas falam essas frases feitas? Prefiro não comentar...

A vida dele pode parecer, para muita gente que acha que fama e dinheiro resolveria a aridez da vida, uma maravilha. E tudo indica que não era. A dor da alma passa para o corpo. E que recurso uma pessoa pode achar que não seja uma droga - Demerol, Rivotril, Fluoxetina, Paroxetina - qualquer uma que possa aplacar uma dor surda e, ao mesmo tempo, gritante? Quem pode condenar alguém por querer fazer com que a dor cesse, quem pode?

Nas últimas semanas, tenho sofrido silenciosamente. Analgésicos e calmantes tem tido, para mim, um tremendo poder de sedução. Eu resisto o quanto posso. Mas me entrego quando dói demais. Ninguém deve ficar com dor - ninguém.

Existe uma dor que não sara com remédio - é a dor da solidão, a dor de não saber o que fazer quando não há o que fazer, a dor de não saber esperar, de não ter confiança nem fé no amanhã, a dor do niilismo, da falta do "algo a mais" que a gente nem sabe o que é exatamente.

Hoje estava pensando num remédio pra essas dores. Acho que encontrei um que talvez sirva para quem possa precisar. Ele não tem preço, não se compra em farmácia. Ninguém pode nos dar - só a gente mesmo, quando quiser, quando precisar. Ele está dentro de nós, numa parte do nosso ser que a gente dá o nome de memória e é um derivado da lembrança. Meu remédio é aquela coisa mágica que faz os Dementadores desaparecerem, que conjura o Patrono - uma lembrança boa, a melhor que pudermos imaginar...

[Um dia de quase outono. Uma praia deserta, o cheiro do mar e barulho das ondas batendo nas pedras. Uma tremenda suavidade e um sentimento de eternidade indescritível...]

Alvorecer com a Pta. Negra ao S do Morro da Armacao de Itapocoroi (Penha - SC) no través


Dei a ele (esse meu remédio) o nome de Oásis. Seria algo como o nome comercial. O nome real - o "composto ativo" - tem quatro letras...

Descanse em paz, Michael!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

A finalidade da minha existência

Um dos clássicos da MPB, favorita de muita gente, a canção "O que é, o que é?", do Gonzaguinha nos traz uma bela reflexão sobre uma palavra - um substantivo, um verbo: vida, viver. Ele e todos que gostam de cantar essa música, preferem a "pureza da resposta das crianças". Outros, todavia, preferem a "objetividade" da resposta de Schopenhauer: "Viver é sofrer". Ambos preocuparam-se em definir o que é aquilo que chamamos vida, dar um conceito sobre o viver. Mas nenhum dos dois se ocupou em responder sobre a finalidade da vida.

Particularmente, gosto da letra de Gonzaguinha - otimista. Entretanto, não posso negar que Schopenhauer - pessimista - me soe muito mais realista. Desde o momento que chegamos nesse mundo, sofremos. Somos arrancados do útero de nossas mães - quentinho, seguro - e somos obrigados a respirar! Ninguém se lembra como é a sensação. Deus deve ter sido muito generoso por não deixar que a gente se lembre disso pois me parece ser um processo muito, muito doloroso... Já parou pra pensar quanto sofrimento passa um pequeno ser apenas por (lutar para) viver? É dor de barriga, dor dos dentes nascendo, uma série de doenças e dores expressas no choro estridente de quem não sabe ainda suportar em silêncio a dor física.

Hoje, não por acaso, pensei em todas as dores sofridas - físicas e psicológicas - pelas quais passei nessas mais de 3o primaveras: os joelhos ralados das quedas, o dia em que eu quebrei o braço esquerdo (anos mais tarde quebraria também o direito), a primeira (única e última) surra que eu levei do meu pai... As doenças: catapora (ainda me lembro do corpo febril e das feridas que coçavam terrívelmente), rubéola, cachumba... e os inúmeros resfriados (e as injeções de Bezetacil). Depois, as terríveis cólicas menstruais e as dores mais excruciantes do mundo: enxaqueca crônica, cólica renal e... a dor de um aborto espontâneo. É tanta dor física que eu já experimentei que costumo dizer que quando eu morrer, nem vou saber que estou morrendo. As psicológicas: o deboche por ser magra demais, ser preterida no jardim da infância pela professora por não ser a "mais bonita", a "mais rica" e a "mais inteligente", ficar sempre em último lugar na família e ter que aprender a fazer tudo sozinha desde muito, muito cedo. Depois, o escárnio por ser gorda demais, o desprezo por ser "inteligente demais"; amar uma pessoa - aquela que a gente pensa que é pra sempre - e ser abandonada por ela e preterida por outra. Amar outra pessoa e ser abandonada (de novo), sem a menor explicação. Amar uma pessoa - a que você pretende e tem fé que seja finalmente aquela que te completa - e ouvir dela todas aquelas coisas que te fazem sentir a agonia de estar vivo, de "ter que" continuar existindo, apesar de.

É, Schopenhauer tem toda razão. Nem as pequenas, nem as grandes alegrias, cobrem a multidão dos meus sofrimentos. Todavia, como todo mundo, nas palavras de Gonzaguinha, não quero a morte. Não porque a temo. Ao contrário, todas as dores que sofri e que tenho a certeza absoluta de que ainda vou experimentar até que o último sopro de vida deixe meu corpo me fazem saber que morrer é a consequência que, entendida, deve ser simplesmente aceita.

E sobre a finalidade da Vida, afinal? Que me perdoem o imenso preâmbulo para o registro de algo muito, muito simples sobre a minha razão de existir: eu existo para fazer feliz as pessoas. Eu quero isso. Eu vim a esse mundo para trazer alegria, amor, paz e felicidade para quem estiver no meu caminho. É por isso que eu estou aqui. É por isso que eu quero viver. Descobri, muito de repente, que fazer as pessoas felizes é a maior alegria que podemos ter - uma que não se compra com dinheiro - e a maior tristeza que podemos experimentar é de causar o sofrimento dos outros. Se a grande luta dos (sobre)viventes é ser feliz, a finalidade da minha existência, enquanto eu tiver forças para continuar nesse mundo, é essa: nunca magoar ou ferir quem quer que seja e proporcionar felicidade. Assim, meus amigos, entre Gonzaguinha e Schopenhauer, fico com Guilherme Arantes e o seu Brincar de Viver...



P.S:Antes de escrever esse post, conversei longamente com uma amiga querida - a @Dea_Brat - sobre a vida e aqui ela escreveu algo bastante bonito sobre o que ela pensa...

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Não aprendi a brincar de soltar papagaio


Soltar papagaio (é assim que em Minas nós chamamos a pipa) é brincadeira de menino, determinaram. Aliás, há muitas coisas só de meninos que meninas não podem. E na minha cabecinha de criança, eu não entendia porque não. Eu via os meninos andando sem camisa na rua - menina não pode; lá ia eu cobrir minhas "vergonhas". Fazer e soltar pipa então era o tabu supremo. Eu via meu irmão mais velho no maior empenho preparando as taquaras de bambu, montando com papel de seda, fazendo rabiola com plástico de saco de lixo, socando vidro pra fazer cerol... Era a brincadeira predileta dele. Ele não me ensinou. Ninguém nunca.

Às vezes, penso que uma pipa voando na imensidão do céu é a metáfora perfeita da minha vida. Sinto-me presa por uma linha - longa, mas frágil - bailando no vento... Tento ir pra esquerda, me puxam pra direita. Dou uma pirueta, danço como posso. Luto contra e a favor do vento. Sou um pontinho minúsculo e colorido enfeitando a imensidão azul. Minha linha não tem cerol. Qualquer um pode vir querer me tosar. E tentam. E tentam. Mas o Soltador de Pipas é habilidoso. Ele dá um jeito de fugir e me manter bailando no Infinito.

Se um dia o vento me rasgar, que Ele me repare, me conserte. Mas se um dia a linha se desgastar, se arrebentar e eu cair, que seja suave a queda e que eu pouse nas mãos de quem me queira bem.




sexta-feira, 1 de maio de 2009

Você tem fome de que?


Do momento em que a gente nasce e dá o primeiro choro no mundo, a primeira coisa que a gente faz, o que é? Comer. A mãe dá o seio ao filho e esse para de chorar imediatamente. Comer é necessidade. Mas é uma necessidade associada - ao carinho, ao aconchego, ao afeto. Por isso, acredito que as pessoas que têm apetites vorazes quando adultas foram crianças que não receberam atenção como mereciam. Fome é sintoma - da falta, da ausência, do vazio. Usa-se dizer "tenho fome de viver". Mas e o que é viver? Como saber, se eu nem mesmo sei o que é a fome?

O dicionário fala que fome é um substantivo feminino sinônimo de apetite, urgência pelo alimento. Ainda bem que não temos fome de ar - respirar é automático; o organismo só grita se realmente falta! Entendo a fome como uma coisa muito psicológica. Acredite ou não, já passei 3 DIAS SEM COMER! Não foi um jejum sofrido, nenhum pagamento de promessa, nada disso. Eu simplemente estava feliz e essa felicidade me completava totalmente. Eu não tinha necessidade de nada, eu não desejava comer ou beber - estava completa. Naqueles dias, eu senti que eu podia passar o resto da minha vida sem botar um grão de arroz e uma gota d'água na boca. Foi uma das experiências mais fortes que eu já vivi. Não foi forçada, nem programada. Ela foi - a impressão ficou. A lição também, de alguma forma.

Fome não é coisa do estômago. É coisa do âmago, do ser. Nos anos 80, os Titãs falaram com bastante propriedade sobre o que é comida - pasto - e o que é a fome - desejo, necessidade, vontade. Eu olho para trás e vejo como há um tempo atrás eu vivia cheia de desejos sem distingui-los da necessidade. Hoje impera a vontade de (sobre)viver. A necessidade do emprego, do dinheiro para pagar as contas, de ter saúde (em tempos de gripe suína!). Ser feliz vira consequência. E as outras fomes? Fome de diversão, fome de arte, fome de música e espiritualidade? Eu tenho muita fome - insaciável e inquietante. Fome de entendimento, fome de (re)conhecimento, de pequenos e prosaícos prazeres. E você? Você tem fome de que?