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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A arte de comprometer-se antes de se comprometer - Comprometida, Elizabeth Gilbert


No universo particular de Liz Gilbert e seu coroa brasileiro apelidado Felipe, o casamento - no papel, na igreja etc e tal - sempre esteve fora de cogitação. Dois traumatizados por experiências dolorosas foram obrigados pelo destino a se comprometerem formalmente da maneira mais inusistada - e por que não dizer, digna de um roteiro hollywoodiano que lhes renderá um futuro confortavelmente perfeito para o que se poderia esperar de um casamento ideal - possível.

Com honestidade e total subjetivividade, Liz teoriza sobre o matrimônio e suas implicações sociológicas, antropológicas e mesmo psicológicas. Sem pretenção alguma, Gilbert apenas tentar conciliar os fatos históricos e as estatísticas alarmantes sobre a pior implicação dos casamentos na era moderna - o divórcio - com sua própria visão sobre o casamento.

Para aquele que é hoje legal e formalmente seu marido, tudo não passa de uma formalidade obrigatória para por em marcha tudo aquilo que ambos desejam: ESTAREM JUNTOS. Para ela, um labirinto interminável de complexidades ideológicas: as representações sociais e religiosas da tradição do casamento. São 240 páginas de exorcismo de fantasmas de preconceitos baseados numa experiência pessoal mal sucedida e sua criação norte-americana fundamentada no medo e na insegurança.

De leitura agradável e leve, esse novo texto da consagrada autora de Comer, Rezar e Amar não veio para superar o best-seller. Ao contrário, não o endossa como grande obra. Trata-se de uma simples, humilde e muito sincera vontade de ententer e fazer dar certo o que tem dado muito errado em toda história da humanidade. Se esse livrinho servisse para fazer com que as "moçoilas casadouras" se debruçassem sobre o casamento com um perfeito equilíbrio entre o romantismo e o pragmatismo e ele pudesse ter o dom de gerar uniões formais sólidas e felizes, esse talvez fosse um dos livros mais importantes já escritos no mundo.


sábado, 4 de abril de 2009

Remember who you are - 60º post

Poucas pessoas sabem, mas a idéia original para o "Rei Leão", veio de um conto antigo da Índia. É um conto muito bonitinho... O próprio Disney já havia aproveitado esse conto hindu e fez um curtinha Lambert - The Sheepish Lion, em 1952. Acredito que o Ocidente conheceu essa estória através de dois monges que viveram nos Estados Unidos - Swami Vivekananda, que contou essa história em uma conferência em 1894, e Swami Paramahansa Yogandanda, que também difundiu esse e outros contos da Índia em seus livros e conferências. As estorinha tem várias versões. Resumidamente: um leãozinho se perde da mãe e uma ovelha, que perdera seu filhote, o adota como seu. O leãozinho, criado no meio das ovelhas, não reconhecia sua natureza felina, carnívora e feroz. Comportava-se como uma ovelhinha, a balir e pastar. Um dia, um leão veio atacar seu rebanho e o leão-ovelha, todo amedrontado, fugia. Isso causou estranheza no leão, que vendo a reação de um membro de sua espécie quis saber porque se comportava daquela maneira. Ele repetia: "Sou uma ovelha, não me coma, por favor". E o outro leão disse: "Não você não é uma ovelha. É um leão igual a mim". O leão-ovelha tremia de medo. O leão deu um rugido e disse: "Faça igual a mim". E o pobre animal se pôs a balir: "Eu não sei, sou uma ovelha". O leão, furioso, levou o até uma poça d'água e disse: "Olhe seu reflexo! Você é um leão!" O leão-ovelha ficou muito impressionado, mas com ajuda do novo amigo, recobrou sua verdadeira natureza.

Eu gosto tanto desse conto - Tanto quanto o do Patinho Feio - pois é uma das lembranças mais doces e felizes da minha infância. Eu assisti Lambert - o Leão Ovelha no programa Balão Mágico. É uma alegoria à verdadeira natureza humana: forte, poderosa. Vivemos como se fôssemos ovelhas medrosas o tempo todo, tremendo diante dos obstáculos, baixando nossas cabeças passivamente quando deveríamos rugir e lutar! O homem tem uma força desconhecida dentro de si capaz de mudar o mundo, mas não acreditamos nela, como o Lambert que pensava que não passava de uma ovelhinha. A estória do Rei Leão segue o mesmo princípio. Simba, cheio de culpa, preferiu esquecer sua verdadeira natureza, fugindo da responsabilidade que representa ser "um leão". É uma metáfora para coragem que precisamos ter para enfrentar as dificuldades e todo sofrimento da vida, assumindo a verdadeira natureza da nossa alma.

Essa semana eu disse aos meus alunos que Bakthin trouxe para literatura uma espécie de Lei de Lavoisier - em literatura (arte) nada se "cria", nada se perde - tudo se transforma. É lindo ver a mesma estória simples e maravilhosa em diversas formas, por diversos ângulos e nuances - sempre ricas e coloridas, para o nosso deleite...

Para quem quiser ler o conto por Swami Vivekananda, clique aqui.








sábado, 7 de fevereiro de 2009

Saudade

do ant. soedade, soidade, suidade < Lat. solitate, com influência de saudar

s. f.,
lembrança triste e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de as tornar a ver ou a possuir;
pesar pela ausência de alguém que nos é querido;
nostalgia;

Ouça a saudade.

"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida". Clarice Lispector

quarta-feira, 23 de julho de 2008

"Attractionibus Electivis" - Decifrando a tabuada da bruxa

Sinceramente tenho pensado com bastante profundidade na possibilidade de me embrenhar (ainda que de forma autodidata) pelo estudo da psicologia analítica de Jung. Claro que eu também penso em fazer o curso de Psicanálise (Junguiana, evidentemente). Mas acho que mais do que querer ser analista dos outros, preciso ser analista de mim mesma - assim como ele o foi. Tendo a começar pelo começo, buscando livros básicos sobre o assunto e também sua obra. E o que me despertou todo esse interesse - a tal da sincronicidade mencionada no post anterior - me conduziu a uma série de ações que me levaram encontrar um livrinho "infantil" chamado a "Tabuada da Bruxa". Trata-se de um excerto poético extraído de "Fausto". O personagem faz um pacto com o diabo (uma alegoria muito interessante, merece uma análise profunda do simbolismo). O encantamento, feito pela bruxa em sua cozinha (não é interessante isso?), é um enigma matemático "indecifrável":

"Do um , faze dez,
No dois e três
Um traço indicas
E rico ficas.
Põe fora o quatro!
Com cinco e seis,
Diz a bruxa, fareis
Sete e oito, e a conta
Quase está pronta:
E o nove é um,
Mas o dez é nenhum.
Das bruxas isto é a tabuada comum!"

Há quase um ano me foi despertado o fascínio pela língua alemã - que durante os anos da graduação nutri uma forte antipatia. Recentemente, consegui uma vaga no curso de Alemão na Faculdade de Letras/UFMG (Língua Alemã I). O fato é que essa sucessão sincrônica de acontecimentos - o fascínio pela língua, um amigo que me levou a conhecer uma amiga (ambos de origem germânica) que ama literatura e muito particularmente bruxas - me impressiona. E é essa atração eletiva goethiana que me faz querer entender essa sincronia tão absurdamente mágica, tão enigmaticamente importante... Decifrá-la-ei? Algo me diz que estou a caminho de.