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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

No regrets


Arrepender-se em português é um verbo reflexivo (também chamado pronominal). Filosoficamente, poder-se-ia entender que ninguém pode sentir arrependimento alheio. É como identidade - intransferível. A presença do pronome define o verbo - identifica completamente a ação com quem a realiza - o sujeito com seu objeto. E como expressar em palavras o que arrepender-se quer dizer?

O recurso mais provável é tentar buscar na etimologia algumas explicações. Assim como a palavra saudade, arrepender-se é um verbo que não tem uma tradução precisa em outros idiomas. Vindo do latim repoenitere, (seu sentido se relacionaria à reposição de algo ou alguma coisa "que falta"; re-poenitere: repor a pena - poena = dor -, sofrimento) a palavra está arraigada à cultura judaico-cristã em que o arrependimento é o "merecido castigo" autoimposto do pecador. Ninguém impõe este sofrimento a ninguém. Ele surge única e exclusivamente para torturar a mente e o coração daquele que se acusa de alguma falta (pecado).

O termo regret em inglês, que teria origem no francês regreter, que por sua vez teria vindo do germânico grāta, não se relaciona com o sentido da origem latina do verbo arrepender-se, mas expressa que o arrependido precisa não apenas de autopunição, mas expor seu sofrimento ao mundo (que explica a origem germânica em grāta, que significa expressar profundo sofrimento com lágrimas).

Assim, poderemos entender o ato de arrepender-se como uma atitude "cristã". Mas, por que? A autopunição apaga ou remove a falta cometida? Em que o sofrimento, o lamento por um "pecado" cometido ajudaria? Por que então nos autoimpomos tal castigo?

Arrepender-se é sofrer duas vezes, como se o sofrimento em si mesmo já não doesse o suficiente. Entretanto, por outro lado, pode representar um lampejo de humildade, de reconhecimento das nossas fraquezas, de que somos humanos e erramos...

Reconhecer falhas e erros em nossas atitudes nos torna (mais) humanos. Mas nos autoflagelar por elas, nos desumaniza. Porque ser humano é ser capaz de aprender - com os erros, com os acertos, observando, agindo - reponsabilizando-se pelos próprios atos, conscientemente.



segunda-feira, 6 de julho de 2009

Carta para uma criança




Para Lucas Belli

É difícil enxugar as lágrimas de uma criança quando a dor que ela sente não é pelo tombo da bicicleta, da topada no futebol; porque essa dor é daquelas que não dá pra curar com merthiolate - que hoje em dia nem arde! - e nem soprando e dizendo "antes de casar sara" vai fazer melhorar...

Sabe, criança... A gente cresce e esquece as coisas boas da infância - a pureza, a inocência (ninguém sabe perdoar melhor que uma criança uma ofensa ou uma briga feia), a alegria com as coisas mais simples da vida... Adulto cresce achando que agora ele vai poder tudo que antes não podia. Esqueceu de fazer a coisa mais importante que a gente veio fazer no mundo - APRENDER. Adulto acha que sabe tudo e não sabe nada, não entendeu, não aceitou, não compreendeu, não aprendeu... E gente grande machuca uns aos outros e nem nota que machuca você também, eu sei.

Posso te dar um chocolate ou prometer te levar no parque para fazer você esquecer... Mas eu sei não vai ajudar. Já fui do seu tamanho e fizeram isso comigo. Nem assim parou ou doeu menos. Assim, o melhor que posso fazer por você, minha criança, é dizer a verdade, mesmo temendo que ela faça doer ainda um pouco mais... O que faz doer (e me atrevo a dizer que sempre) é o amor: demais - o que você tem para oferecer e não aceitam ou rejeitam - e de menos - o que você não recebe, mesmo merecendo tanto...

Queria, do alto da minha sabedoria de gente grande, ser capaz de indicar o exato remédio que vai fazer sarar seu machucado. Mas eu não sei... Nem o que dizer, nem o que fazer. Mas, olha... A dor do amor é uma dor bonita, sabe? É a que faz a gente saber que tem um coração. Portanto, por mais estranho que pareça, você não deve sofrer por isso. Ter um coração é uma coisa maravilhosa! Tem muita gente que parece ter pedra no lugar... Se você chora porque está doendo, é porque você tem um e isso te torna especial.

Criança, eu sei que dói demais crescer. E posso dizer que essa dor é uma professora muito brava e exigente. Se a gente não entende a lição, ela vem toda rigorosa! Ela não faz por mal e nem quer que a gente sofra. Ela só quer ensinar... E aprender, meu menino, é a coisa mais legal que a gente pode fazer a vida inteira!




sexta-feira, 1 de maio de 2009

Você tem fome de que?


Do momento em que a gente nasce e dá o primeiro choro no mundo, a primeira coisa que a gente faz, o que é? Comer. A mãe dá o seio ao filho e esse para de chorar imediatamente. Comer é necessidade. Mas é uma necessidade associada - ao carinho, ao aconchego, ao afeto. Por isso, acredito que as pessoas que têm apetites vorazes quando adultas foram crianças que não receberam atenção como mereciam. Fome é sintoma - da falta, da ausência, do vazio. Usa-se dizer "tenho fome de viver". Mas e o que é viver? Como saber, se eu nem mesmo sei o que é a fome?

O dicionário fala que fome é um substantivo feminino sinônimo de apetite, urgência pelo alimento. Ainda bem que não temos fome de ar - respirar é automático; o organismo só grita se realmente falta! Entendo a fome como uma coisa muito psicológica. Acredite ou não, já passei 3 DIAS SEM COMER! Não foi um jejum sofrido, nenhum pagamento de promessa, nada disso. Eu simplemente estava feliz e essa felicidade me completava totalmente. Eu não tinha necessidade de nada, eu não desejava comer ou beber - estava completa. Naqueles dias, eu senti que eu podia passar o resto da minha vida sem botar um grão de arroz e uma gota d'água na boca. Foi uma das experiências mais fortes que eu já vivi. Não foi forçada, nem programada. Ela foi - a impressão ficou. A lição também, de alguma forma.

Fome não é coisa do estômago. É coisa do âmago, do ser. Nos anos 80, os Titãs falaram com bastante propriedade sobre o que é comida - pasto - e o que é a fome - desejo, necessidade, vontade. Eu olho para trás e vejo como há um tempo atrás eu vivia cheia de desejos sem distingui-los da necessidade. Hoje impera a vontade de (sobre)viver. A necessidade do emprego, do dinheiro para pagar as contas, de ter saúde (em tempos de gripe suína!). Ser feliz vira consequência. E as outras fomes? Fome de diversão, fome de arte, fome de música e espiritualidade? Eu tenho muita fome - insaciável e inquietante. Fome de entendimento, fome de (re)conhecimento, de pequenos e prosaícos prazeres. E você? Você tem fome de que?


sábado, 7 de fevereiro de 2009

Saudade

do ant. soedade, soidade, suidade < Lat. solitate, com influência de saudar

s. f.,
lembrança triste e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de as tornar a ver ou a possuir;
pesar pela ausência de alguém que nos é querido;
nostalgia;

Ouça a saudade.

"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida". Clarice Lispector