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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Prece de Gratidão

Existe algo inexplicável que os homens chamam de Deus. Por convenção, eu usarei esse nome para expressar coisas que eu preciso dizer.

Deus, obrigada. Obrigada por ter criado todos os mundos. Obrigada por ter pintado o céu e a terra de tantas cores tão lindas que meus olhos mal podem distinguir entre tantas nuances perfeitas.

Obrigada pela chuva que molha as plantas, que mata a sede. E que destrói os morros, desbarranca casas e deixa pessoas desabrigadas - quando não morrem em função disso.

Obrigada pelo sol e pelo ar que mantêm tudo que existe. Obrigada mesmo quando eles causam a morte e a intoxicação.

Obrigada pelo sangue que corre em minhas veias que me permite estar aqui dizendo essas coisas que serão (ou não) lidas por quem acredita (ou não) que Você existe. Obrigada ainda assim quando ele é derramado em "Seu Nome" por ódio, vingança, violência...

Obrigada Deus, por ter arquitetado tão bem a manutenção do corpo... Obrigada pela fome, pela sede, pela angústia, pela solidão, pelo sofrimento meu e de todo ser vivente.

Obrigada pela capacidade de discernimento que me habilita a criar e desenvolver algo que seja útil para todas as pessoas. Igualmente pelo mau que existe: pela dor, pela ferida, pela falta de cura - das doenças do corpo e da alma. Obrigada por permitir que eu veja mesmo aquilo que não quero ver.

Obrigada pela salvação assim como pela danação eterna - se é que isso mesmo existe. Obrigada, meu Senhor, pelo milagre da vida assim como pelo milagre que é a morte - quando nos ensina a importância das coisas e das pessoas.

Obrigada por todos meus amigos e igualmente por aqueles que pensam ser meus inimigos - eles me fazem mais forte, mais compassiva e paciente. Obrigada meu Deus pela presença assim como pela falta - de amor, de carinho, de atenção, de cuidado. Obrigada por tudo que eu aprendi e pelo que ainda não entendo.

Obrigada, oh Meu Doce Senhor, por te ver no feio, no horrível, no triste, no ignorante, no imperfeito assim como te vejo no belo, no maravilhoso, no fantástico e no perfeito porque se eu não for capaz de Te ver em todas as coisas, não sou digna de dizer que existo.



quarta-feira, 1 de julho de 2009

Quero ser Guru


Se não fossem os Beatles, o Ocidente não saberia o que esse termo originário da cultura indiana significa. Seu sentido, então, hoje está completamente banalizado: o guru da moda, o guru disso o guru daquilo... Etimologicamente, vem do sânscrito (considerada a mais antiga das línguas indo-européias) e é formada pelas sílabas gu - que significa sombra - e ru - que significa aquele que dissipa. Grosso modo, guru nada mais é que professor. O fato é que no Hinduísmo (agora tão caricaturizado pela maldita novela das oito), o guru é muito mais do que um simples instrutor. O guru é o único que pode salvar o discípulo da ignorância, conduzindo-o a liberdade - ou a Deus, em outros termos... Assim, o guru é "aquele que deve ser seguido". Portanto, sem discípulo, não existiria guru, não é? Pois é...

Há muito tempo tenho tido contato com gurus e me desapontado profundamente com eles. A crença de que um guru verdadeiro nos libertará do sofrimento é tão tentadora quanto morfina para o canceroso em fase terminal. A experiência tem me mostrado que as pessoas realmente não sabem o que de fato é um guru. E os gurus também não sabem qual é mesmo o seu papel no mundo. Ser um guru na Índia deve ser comum e natural - como ser padre no ocidente, talvez. Mas ser um guru de ocidentais significa viver num luxo absurdo e ser venerado, adorado como um ídolo pop - nenhuma diferença entre os fãs da Madonna e os seguidores ocidentais de guru. Nunca vi um favelado miserável seguir guru. Quem segue guru já foi para os Ashrams da Índia ou dos Estados Unidos pelo menos uma vez na vida. E que pobre ganhador de salário mínimo brasileiro pode pensar em realizar uma extravagância dessas? E quem em nosso país subdesenvolvido pode sustentar com dakshina a obra de um guru? - nenhuma diferença entre os ricaços que doam para instituições "espirituais" orientais e os pobres que dão o dízimo para as igrejas evangélicas.

Controvérsias à parte, acho que aprendi muito com todos os gurus que passaram pela minha vida. Aprendi que os ensinamentos de um guru (falso ou verdadeiro, realizado ou não, não importa) não difere muito uns dos outros em conteúdo - apenas na forma; que a equanimidade é o caminho da paz interior; que servir, ser doce, justo, honesto, bom, amoroso não são apenas deveres morais de todo ser humano, mas constituem sua verdadeira natureza; com forma, sem forma, com nome ou sem nome, existe "algo" que está além da compreensão comum - que guia nossas vidas, transformando-as, conduzindo-as, por mais que tentemos colocá-las segundo nossas próprias leis e, quando nomeado, é doce em qualquer idioma; que todos os templos, todas igrejas, todos os espaços que cultuem isso que prefiro não denominar é capaz de nos deixar mais fortes para enfrentar os obstáculos da vida e que devíamos sempre frequentar algum com o qual nos identificássemos.

Sobretudo, aprendi que esses seres "especiais" que obtêm da humanidade ordinária o título de mestre espiritual recebem tudo pelo qual todo ser humano - ignorante, culto, rico ou pobre - sempre desejou: atenção, cuidado, carinho, respeito e amor. Por isso, vou achar um caminho para me tornar guru. Mas pretendo ser um guru diferente. Não quero que me sigam. Não quero ser exemplo, não quero levar ninguém a lugar nenhum. Quero que cada um se ache, como eu quero me encontrar. Quero que todo mundo desperte a força que eu quero desperta em mim. Quero que cada um coloque à prova seus valores e supere as dificuldades como eu tento fazer todos os dias. Quero que todos encontrem a alegria de viver, mesmo que ela pareça não existir, porque eu sei que ela existe e que só é preciso encontrar. Não quero que ninguém me faça cerimônias devocionais. Quero ser grata pelo amor que sinto profundamente pelas pessoas e que o respeito que eu almejo brote dele, mutuamente. E sinceramente desejo, acima de tudo, que cada um seja o guru de si mesmo!