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sábado, 9 de abril de 2011

Projeto Diário de Classe

"De cada lado da sala de aula, pelas janelas altas, o azul convida os meninos, as nuvens desenrolam-se, lentas, como quem vai inventando preguiçosamente uma história sem fim...
Sem fim é a aula: e nada acontece, nada...
Bocejos e moscas.
Se ao menos, pensa Lili, se ao menos um avião entrasse por uma janela e saísse pela outra!"
Mario Quintana

Quase um mês se passou desde minha última postagem. Meu dia já se passou e nem tive como registrar o momento que se repete diferentemente a cada ano. Motivo? Trabalho. Muito e árduo trabalho. Cansada? Muito! Abatida? Um pouco. Mas como todo bom guerreiro, feroz e pronta para enfrentar qualquer desafio. Estou à voltas com vários problemas "pedagógicos" no meu novo local de trabalho. Novo em todos os sentidos. Outro dia me peguei pensando como foi que eu pude deixar TUDO para trás para enfrentar ISSO? Só amando muito mesmo ensinar. E eu amo, gente. Não duvidem nunca de um professor apaixonado. Como todo apaixonado que se preze, sempre estou sofrendo pelo objeto do meu amor: meus alunos que resistem de todas as formas às minhas aulas. Tédio, bagunça, indisciplina... Tudo de ruim que pode acontecer numa sala de aula tem acontecido em algumas de minhas turmas. Tenho me esforçado tanto para encontrar estratégias didáticas para reverter a situação, mas o placar está de mil a zero contra mim. E nesse jogo, gente, ninguém tem saído ganhando. 

Por demais pensar em tudo isso e no projeto que deixei em stand-by, pensei em criar um perfil no Twitter associado a um blog que eu chamaria de "Diário de Classe". Estou sentindo a necessidade de registrar algumas coisas da minha prática que acho que podem ser úteis a quem aprecia e se preocupa com Educação como um processo transformador do ser humano sem que esse seja um registro subjetivo. A ideia é tornar minhas experiências públicas de maneira mais universalizada porque acredito que minhas angústias como professora são as mesmas de muitos outros espalhados pelo mundo a fora... Como - infelizmente - o username Diário de Classe já foi utilizado, porém consegui registrar como @Diario_Escolar. Ainda não sei se vou ter como levar adiante esse projeto e se ele dará certo. Espero que meus visitantes daqui possam apoiá-lo e apontar seus comentários, críticas e sugestões sobre esse tema tão urgente.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Nunca quis ser Sidney Poitier


Quando é que uma pessoa decide o que ela qur ser pelo resto da ida? Quem de nós não se lembra de ter respondido à tia do jardim de infância, sem pensar duas vezes, bombeiro, policial ou professor? Todo mundo quer ser alguma coisa. Mas quando há quem queira simplesmente ser, esse vai encontrar sérios problemas na vida social adulta. 

Todo mundo tem que ser alguma coisa para manter o mundo funcionando. Mas quem é que se torna alguma coisa movido única e exclusivamente pelo Ser? 

Estou pensando no porque de ter desejado um dia me tornar professora. Educação é uma palavra tão desgastada quanto a palavra amor. Aliás, não deveria o ato de educar ser um impulso amoroso? E quem é que ama exercer um pseudo-educar?

Do filme do Poitier, lembro da canção que comoveu gerações. Muito pouco da história me lembro. Todavia, acredito estar passando, nesse momento da minha carreira, por algo bem próximo disso. Quem é que tenha brincado na infância de lousa e giz de cera na mão, imaginaria enfrentar tantas dificuldades e barreiras? Ninguém...

O filme tem um final feliz, acho. Não me lembro bem. Só sei que o mestre será lembrado e seu dever foi cumprido - para com seus alunos e para com sua consciência. O meu filme? Bem, esse está apenas começando...

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Por uma educação que transforme o mundo



Quem me acompanha já sabe que sou uma apaixonada por minha profissão e que estou empreendendo todos meus esforços em minha carreira, mesmo atravessando um dos piores momentos da minha vida.  Hão de vir mudanças que transformarão singularmente a pessoa que sou agora para me transformar na que pretendo ser enquanto viver. Nesse meu futuro que é quase agora, deparei-me com números absurdos em uma pesquisa sobre a qualidade da educação sob o olhar do professor. Estou HORRORIZADA com a discrepãncia entre o que ouço dos colegas da rede pública estadual aqui em Minas em conversas informais em sala dos professores quanto à qualidade da educação. Estão sempre, o TEMPO TODO, reclamando, criticando e não fazendo NADA para que as coisas melhorem. O resultado da pesquisa realizada pela da Fundação SM teria, seguramente, números BASTANTE diferentes se as pessoas não pusessem a máscara da hipocrisia. Do início da minha carreira em 2003 até hoje, fui severamente desestimulada a continuar na profissão, especialmente pela rede pública de ensino do Estado. Fui obrigada a ver resultados de provas de avaliação de desempenho de alunos serem adulterados por professores para manter/conseguir benefícios salariais que estão vinculados aos mesmos. Fui obrigada, mais de uma vez, a conviver com o desinteresse, o descaso e o desprezo pelos alunos que são sempre o problema - nunca somos nós mesmos (os "mestres") ou a escola. E não é de hoje que isso me incomoda. Bastar (re)ler meu desabafo em abril do ano passado... 

Fui humilhada incontáveis vezes por não ser efetiva nos cargos que ocupei como designada e em processos de designação. Nunca tive a oportunidade de encontrar na rede pública mineira um único docente que tivesse o mínimo entusiasmo por estar na escola formando cidadãos. Ao longo desses anos, meus caros colegas jamais se esqueceram, evidentemente, de lamentar pelos baixos salários, pelo volume de trabalho, pela geração que "não respeita ninguém", mas nunca se lembraram de empreender esforços INDIVIDUAIS para mudar essa realidade.

Não posso pensar em fazer uma revolução na educação ou na sociedade se primeiro não realizo uma revolução interior e, tomando emprestada a palavra do poeta, inelidível: é necessário revolucionar todos os (pre)conceitos que nos impuseram, acreditar em nossos sonhos e fazê-los acontecer.

No filme "Um sonho possível" (que deu a Sandra Bullock o Oscar de melhor atriz), o personagem principal, um adolescente negro e marginalizado, consegue uma oportunidade em uma escola de elite, mas os próprios professores da instituição desacreditavam de sua capacidade. No entanto, quando pousou sob O OLHAR ATENTO de alguém que reconheceu sua real potencialidade, pôde se desenvolver e crescer como ser humano e como aluno. Nessa história (que não é mera ficção, já que é baseada em fatos reais), marcou-me o momento em que o estudante, ao realizar uma tarefa acadêmica, registra o quão importante é a determinação sobre o caminho a trilhar na vida, a coragem necessária para empreendê-lo e a força de vontade para lográ-lo, sem desistir.

Acho que os docentes da rede pública no Brasil precisam voltar seu olhar para si mesmos; não apenas para as práticas pedagógicas, as especificidades de seus alunos ou da comunidade escolar. Deveríamos, todos nós, nos debruçarmos sob nossos princípios - aqueles mesmos que nos trouxeram até aqui - e realizarmos, em nós mesmos, em primeira instância, a verdadeira mudança - aquela que pode pôr em marcha a verdadeira e tão desejada transformação do mundo.




quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Meu professor inesquecível


Quando me foi pedido como tarefa escrever sobre o professor inesquecível, senti que não seria capaz de falar dele sem antes saber onde ele está, quem ele é exatamente, afinal... É muito simples escrever para cumprir uma obrigação. Mas, para mim, escrever é um ato tão sagrado quando orar. E eu não poderia dizer a verdade por escrito ferindo um princípio tão particular...

Ainda que seja meu dever falar sobre o professor inesquecível a quem me pediu, eu o faço com prazer. E ainda compartilho com quem quer que venha ler essas linhas, o vislumbre de um mistério: Encontrá-lo – o professor inesquecível – foi uma “busca” mística e sem precedentes. Não houve esforço, não houve qualquer iniciativa para achá-lo ou classificá-lo... Mas houve enfim a descoberta: No vasculhar da memória, na sondagem das vivências, nos recônditos da alma. Lá estava... O Professor...

Uma pessoa que me deu um gato para colorir quando eu era uma criança viva, ativa e atenta, aprendendo o que é melancolia, o que é se sentir diferente, mesmo sendo tão igual... Uma pessoa que me fez sentir vergonha por não saber estudar matemática... Uma pessoa que, ensinando fórmulas algébricas – as que eu tanto odiava – me falava sobre o que existe ‘mais além’... Uma pessoa que fez jus ao meu esforço diante de uma aparente derrota... Uma pessoa que me fez gostar de uma língua que não é a minha tão fortemente que inundou meu coração de uma paixão adolescente... Uma pessoa que sentiu na minha voz alguma melodia, a quem – por empecilho materno – não pude seguir... Uma pessoa ‘de mentira’ que dizia para seus alunos carpe diem... Uma pessoa que me fez assistir Tempos Modernos... Outra que me fez assistir Lawrence da Arábia... Uma que me fez ver Freud: Além da alma... Outra que me apresentou A língua das mariposas... Uma que, em me fazendo ler Bach e pedindo para escrever resenhas, mostrou-me o quão difícil, quão duro é fazer nascer das letras, das sentenças, algum sentido que não seja fictício e que tenha, ao mesmo, algo imaginário... Uma pessoa que me encanta com sua fala, sua eloqüência – denotando compartilhar comigo amor à Língua Portuguesa que abracei tomando seu ensino por vocação – na energia que emana de cada uma de suas palavras, as quais, por tamanha admiração, solvo com gosto, mesmo quando elas, para aqueles que, em não conhecendo-lhes o valor, as entendem como prolixidade... Muitos outros encontrei nos livros... E descobri que todos eles – todos – não são apenas inesquecíveis, mas imortais, posto que se encontram na Eternidade...

Conheci outros tantos – de ambos os gêneros – todos absolutamente memoráveis... Um que, sendo incompreendido por todos, encontrou em mim a compreensão – quando pude ser capaz de ouvi-lo com todo meu ser... Um que – ainda que me parecesse obtuso e orgulhoso – foi capaz de tocar-me o entendimento tão profundamente a ponto de provocar em mim uma avassaladora transformação que mudou o curso de minha vida...

Assim, refletindo profundamente sobre como e onde encontrar o professor inesquecível, eu pude perceber - com a maturidade que me trouxeram cada uma dessas singulares experiências com cada um desses meus célebres preceptores – que serão inolvidáveis todos aqueles que me fizerem ser a pessoa que eu sou neste exato momento e a que serei pelo resto da minha vida inteira... Porque o professor inesquecível é aquele que professa a Verdade que se esconde no interior de cada um de nós.


Sei que é meio clichê, mas esse filme mostra muito do que eu sinto como professora e como eu me sinto com relação aos muitos mestres que tive ao longo da minha vida...